Silva horrida - Guia de cidades

DESCRIÇÃO PRÁTICA E POÉTICA DO TERRITÓRIO OCUPADO

Monday, June 16, 2008

SAN MIGUEL DE TUCUMÁN, MAIO DE 2008

Mapa turístico de San Miguel de Tucumán

"Desde que se fue
triste vivo yo,
caminito amigo,
yo tambien me voy
"

("Caminito", tango de
Gabino Peñaloza
e Juan Filiberto, 1926)

Também em San Miguel de Tucumán, Argentina, é conhecido o mercado de livros usados da calle de Santa Fe, Buenos Aires, entre as estações Plaza Italia e Palermo. Eu, Sandro Ornellas e Katherine Funke chegamos até lá por acaso, em nosso apressado passeio de apenas três horas na capital argentina, dispostos a aproveitar o tempo livre entre dois vôos e guiados por nossa intuição detectora de especiarias, farejando obras de Cortázar e Borges, depois de descer de um táxi, na Plaza Julio Cortázar, e de percorrer toda a calle Jorge Luis Borges.
Mas como fomos parar em Tucumán? Pela literatura, como não podia deixar de ser.
Participamos da noite de encerramento do evento literário Mayo de las Letras, na sede do Ente Cultural de Tucumán, órgão cultural do governo da província, que nos convocou, juntamente com a Secretaria de Cultura do Estado da Bahia, para apresentar um recital de literatura baiana. Nosso grupo de escritores C.O.R.T.E. (sigla de Cazé, Ornellas, Rios e Trindade) - desta vez sem dois dos cinco componentes (Gustavo Rios e Lima Trindade) - apresentou-se na noite de 30 de maio, no Teatro Orestes Caviglia, que fica no mesmo prédio do Ente Cultural. (...)
Todos os textos foram lidos em português. Pedimos à organização do evento que distribuísse cópias do programa do recital (também em português) a todo o público, como uma forma de facilitar a compreensão do que seria apresentado naquela noite. A barreira linguística, no entanto, não impediu que a comunicação se efetuasse, principalmente pelo papel de mestre-de-cerimônias desempenhado com habilidade por Katherine, que fala espanhol fluentemente. Durante o recital, ela conversou com a platéia, disse gracejos, anunciou o nome dos autores e, a meu pedido, fez uma breve explicação sobre o que é a literatura de cordel. Conforme tínhamos combinado, ela também convidou um voluntário da platéia a subir ao palco e dizer um poema de sua autoria (ofereceu-se um jovem de 18 anos, que recitou de memória). Depois da apresentação, que durou cerca de 30 minutos, as pessoas que nos abordaram disseram que, apesar de não compreenderem o português, tinham gostado do espetáculo, tinham conseguido entender algumas palavras e tinham, pelo menos, captado a atmosfera de cada texto, construída pela musicalidade da língua, pela entonação dos poetas em cena e pela música de fundo executada por Katherine.
San Miguel de Tucumán foi construída de acordo com a "traza", o plano uniforme que a colonização espanhola seguiu na América para a edificação de suas cidades: "A construção da cidade começaria sempre pela construção da chamada praça maior. (...) A praça servia de base para o traçado das ruas: as quatro principais sairiam do centro de cada face da praça. De cada ângulo sairiam mais duas, havendo o cuidado de que os quatro ângulos olhassem para os quatro ventos." (Sérgio Buarque de Holanda, "Raízes do Brasil", 13ª edição, p. 63). Ou: "uma grande praça no centro, uma grade de ruas perfeitamente retas que se estendiam dali em todas as direções, formando quarteirões quadrados ou retangulares (...) A cidade da América espanhola podia assim crescer indefinidamente através da expansão da traza, mantendo ao mesmo tempo a estabilidade quase total do centro" (Suart B. Schwartz e James Lockhart, "A América Latina na época colonial", p. 93)
A brevidade de nossa passagem pela cidade (apenas dois dias, com uma agenda apertada) não permitiu que explorássemos nada além de uma pequena fração da tal "estabilidade quase total do centro", já que o hotel que nos hospedou distava apenas três ou quatro quadras da sede do Ente Cultural. Da mesma forma, o contato que tivemos com a cultura e a literatura local foi rápido e pouco profundo. Conhecemos alguns escritores veteranos e iniciantes e trocamos livros com eles. Esse primeiro contato, porém, provocou em nós um interesse pela produção literária local e uma identificação mútua que certamente dará continuidade, via internet, ao intercâmbio já iniciado.
Nosso anfitrião durante a estadia em Tucumán foi o professor Ricardo José Calvo, atual diretor de letras do Ente Cultural de Tucumán. Ele tem pouco mais de 40 anos de idade, viveu metade desse tempo em Buenos Aires e metade em Tucumán. Especializou-se em linguística, particularmente na análise da estrutura do discurso político. Escreve ficção e dramaturgia. Calvo convocou alguns escritores tucumanos para um encontro conosco, na manhã do dia 30, na biblioteca do Ente Cultural, no primeiro andar. Foi assim que conhecemos Inés Aráoz, Liliana Maldonado de Bliman, José Miranda Villagra e o jovem Joaquín Acevedo.
Liliana Maldonado de Bliman nos presenteou com "Dishos y pishos - Cuentos e refranes" (editado pela tucumana Associación Argentina de Lectura, 2006), escrito em parceria com Jacobo Cuño. De ascendência judia, seu livro é uma compilação de costumes, lendas, receitas culinárias e expressões típicas da comunidade sefardita (de descententes de judeus) tucumana.
Apesar de não ter dito palavra durante a reunião e de ter se retirado cedo, o compositor, cantor, escritor e folclorista José Miranda Villagra nos marcou pela obra que escreveu e nos entregou. O alentado volume "El folclore, en el lenguaje, la esencia y el amor" (publicado pela tucumana Ediciones El Graduado, 2005) parece ser um trabalho de cunho didático, dedicado a situar as tradições populares argentinas e tucumanas no cenário contemporâneo: "El peligro latente que se cierne sobre esta disciplina y su objeto o motivo de estudio, identificado con los fenómenos folclóricos, como derivación de un acontecimiento mundial, reconocido como el fenómeno de la globalización" ("Prefacio", p. I). Preocupação que permeou toda a conversação com os escritores tucumanos e com a qual comungamos, bem como muitos artistas e pesquisadores brasileiros e baianos.
Inés Aráoz, 62 anos, é uma intelectual mais ligada à tradição literária ocidental canônica, com forte presença da literatura russa em seu trabalho (aparentemente, ela descende de russos). Trouxemos dois livros dela: "Balada para Román Schechaj" (2006) e "La comunidad - Cuadernos de navegación" (2006), publicados respectivamente pelas editoras Ediciones del Copista (sediada na cidade de Córdoba) e Nuevohacer (Buenos Aires). Inés participou do júri que elegeu os textos premiados no concurso literário integrante do evento Mayo de las Letras.
O jovem Joaquín Acevedo é estudante de literatura e conhece a literatura brasileira mais do que todos os outros escritores veteranos com quem conversamos, demonstrando grande interesse por nosso trabalho. Acevedo disse já ter lido traduções de Guimarães Rosa, citou Graciliano Ramos e, em poucos instantes, pôde reconhecer a influência da poesia concreta no livro de Sandro Ornellas. Acevedo teve uma participação importante nessa reunião literária matutina: com seus conhecimentos de português, ajudou-me a traduzir um poema de meu livro "Microafetos" para o grupo, que não compreende nossa língua. A experiência de ler esse poema em voz alta, bem como um trecho de meu folheto de cordel "A filha do Imperador que foi morta em Petrolina", para um grupo de escritores de outro país, falantes de outra língua, foi um momento de enorme satisfação para mim. Nesse momento, percebi a importância de manter uma troca de informações com escritores de fora do Brasil e o potencial de uma ponte cultural como essa, e decidi preparar, nos próximos meses, uma edição traduzida para o espanhol de meu folheto de cordel.
Essa percepção se aprofundou após o recital do dia 30, quando travamos contato com alguns escritores jovens ganhadores de prêmios no concurso literário integrante do Mayo de las Letras: Jorge Nicolás Tolosa (primeiro colocado no Género poesía), Federico Miguel Soler (terceira menção honrosa no gênero conto), María Eugenia Méndez (também atriz, primeira menção honrosa em poesia) e Marcos Bauzá (também artista plástico, segunda menção honrosa em poesia). Com os dois primeiros, tivemos maior aproximação, convidados que fomos, por eles, a participar da comemoração que fariam após a entrega dos prêmios. Nessa comemoração, fizemos um mini-recital informal, e pudemos escutar alguns versos de Nicolás Tolosa (meditativos, com um cunho espiritual e beatnik) e de Federico Soler (surrealistas, verborrágicos). (...)
Foi uma grande responsabilidade, uma honra e um desafio representar a Bahia (e o Brasil, já que todos os outros participantes do evento eram argentinos) num evento internacional. (...) A viagem a Tucumán ficará para sempre em minha memória também porque foi nela que, pela primeira vez, preenchi o campo “profissão” da ficha de check-in de um hotel com a palavra “escritor”.