Silva horrida - Guia de cidades

DESCRIÇÃO PRÁTICA E POÉTICA DO TERRITÓRIO OCUPADO

Sunday, May 16, 2010

Meu blog novo: segunda chamada !


Há um mês, transferi todas as atividades do meu velho blog Silva horrida para outro endereço, Macromundo - mesmo título de meu livro de poemas que está em temporada de lançamentos pelo país afora. O novo blog é, de agora em diante, o espaço onde publicarei poemas e comentários sobre livros, viagens, leituras, lugares e outros assuntos. A ideia também é organizar, num único local, alguns de meus textos e informações sobre atividades que venho realizando, além de links para vídeos e áudios.Atualizem seus marcadores, feeds, etc. e acompanhem Macromundo.

Saturday, April 10, 2010

LIVRO NOVO, BLOG NOVO

atualizem seus marcadores, feeds, etc.:

meu novo endereço é
www.wladimircaze.blogspot.com
(em construção)

Foram mais de 5 anos no ar, registrando passo a passo minha caminhada literária. Porém limitações técnicas da plataforma google+blogspot me impediam de atualizar o template do Silva horrida. A partir de agora, postarei meus comentários sobre livros, viagens, leituras, lugares e outros assuntos num blog mais organizado, com links para textos, vídeos, áudios e outras atividades que venho realizando.
Visite Macromundo!

Thursday, April 08, 2010

Próximos lançamentos de "Macromundo": Porto Alegre/RS e Vitória/ES



PORTO ALEGRE/RS:
24 de abril, sábado
10h
na Letras & Cia (Osvaldo Aranha 444, Bom Fim)
Com Bárbara Lia e Laís Chaffe
(Evento integrante da programação do Festipoa, de 20 a 25 de abril -
programação completa)




VITÓRIA/ES:
20 de maio, quinta-feira
20h
na ADUFES (Campus da UFES)
Com Alexandre Moraes, Casé Lontra Marques e Alexander Nassau

[ breve mais novidades ]

Sunday, April 04, 2010

O grande marco visual incorporado na paisagem de Vitória durante a década de 1980 foi a terceira ponte de ligação entre Vitória e Vila Velha. (...) A visualização da cidade do alto possibilitou a identificação de alguns elementos importantes do sítio físico de Vitória como os afloramentos rochosos (...).” (Letícia Beccalli Klug, em “Vitória: Sítio físico e paisagem”, p. 57)

A vista de Vitória através dessa ponte desvenda quase todos os elementos naturais da ilha. A sua altura permite visualizar, à esquerda, todo o desenho da baía e de suas ilhas, além de ver ao fundo as montanhas do interior. A relação entre o mar e os morros fica bastante clara para quem trafega pela ponte.” (id., ibid., p. 69)

Desde a sua fundação, a cidade sempre dependeu do mar para se relacionar com o meio externo. Sua presença na imagem da cidade e na identidade da população é muito intensa, por ser uma paisagem consolidada ao longo de cinco séculos. A vista da paisagem natural da ilha é completada pela presença de cadeias montanhosas como a do Moxuara, no município de Cariacica, e a do Mestre Álvaro, no município da Serra. Essas paisagens refletem bem a característica da natureza capixaba: a vista do mar é sempre complementada por montanhas ou morros ao fundo.” (id., ibid., ps. 70-71)

Vista aérea da Baía de Vitória (à esquerda), com a ilha de Vitória
(centro) e a Baía do Espírito Santo (à direita)



Vitória: Sítio físico e paisagem”, de Letícia Beccalli Klug (Edufes, 2009), é um estudo das transformações operadas sobre o meio natural durante o processo histórico de construção da paisagem urbana da capital capixaba, fundada em 1551, na maior das 34 ilhas do arquipélago de Vitória, e que ocupava inicialmente uma estreita faixa entre a Baía de Vitória e o Morro da Fonte Grande: os sucessivos aterros que multiplicaram em várias vezes sua área (concluídos nos anos de 1812, 1819, 1830, 1860, 1925, 1941, 1952, 1960 e 1975); a expansão no sentido leste e norte, com a abertura de bairros planificados; e a disseminação descontrolada de edifícios de grande porte, que alterou radicalmente a percepção visual da complexa composição original de morros, matas, mangue, mar e ilhas.

Veja fotos de Cacá Lima produzidas para o livro de Letícia Klug

Foto de abertura do post extraída do link http://img167.imageshack.us/i/1232302ti8.jpg/

Saturday, April 03, 2010

Jardim da Penha, Vitória, Espírito Santo


foto do Jardim da Penha: Edson Reis (clique na imagem para ampliá-la: no alto, à direita, o Aeroporto de Vitória; no alto, à esquerda, o campus da Universidade Federal do Espírito Santo; na lateral direita, a praia de Camburi)



A leste do sítio universitário, depois de cruzada a Av. Fernando Ferrari, encontrava-se localizado desde então o bairro de Jardim da Penha. Em dezembro de 1970 havia o traçado de aproximadamente oitenta por cento deste, mas, apenas, para efeito de vendas de lotes. Oitenta por cento do bairro, a grosso modo, eram ocupados pela vegetação de restinga. As ruas projetadas pareciam mais caminhos que vias públicas, todas sem qualquer espécie de calçamento. A vegetação avançava pelas ruas ainda projetadas e ocupava grande parte do interior dos lotes. As praças que hoje existem eram apenas áreas demarcadas para suas futuras destinações. (...)” (ps. 23-24)

Jardim da Penha ainda não se constituía em um núcleo nem muito menos em bairro residencial digno de ser assim chamado, tão limitado era o número de suas construções. E, naturalmente, inexistiam casas comerciais ou qualquer estabelecimento público. A mais antiga construção de todo o bairro é simbolizada pelos armazéns do Instituto Brasileiro do Café (IBC) (...) inaugurado em 1961. (...)” (ps. 24-25)

Em Jardim da Penha havia dessa mata [de restinga] cobrindo quase cinqüenta por cento do bairro, mesmo levando-se em consideração que já havia empresas de loteamento operando desde há muito tempo ali. Essa paisagem tinha continuidade até a sétima quadra, indo da praia para o interior do bairro. (...)” (ps. 25-26)

“(...) A febre de construções (...) ainda continua nessas paragens características de classe média. A princípio, conjunto de casas residenciais, depois, conjuntos de edifícios residenciais, em seguida, edifícios isolados de melhor acabamento e apresentação e casas de bonitas fachadas. Finalmente, bares, lojas, supermercados, enfim, tudo o que um bairro necessita para sua vida própria. (...)”(ps. 32-33)

Ricardo Brunow Costa, em “Expansão urbana da área Norte de Vitória – 1970/87” (Centro Cultural de Estudos e Pesquisas do Espírito Santo, 1989)


Leia + sobre o Jardim da Penha neste outro post do Silva horrida, de novembro do ano pasado.


Monday, March 29, 2010

vídeo do recital de lançamento no Rio de Janeiro

Evento Cidade aTravessa, Edição #1, 19 de março de 2010; in order of appearance: Clóvis Bulcão (RJ), Casé Lontra Marques (ES), Alexandre Moraes (ES), Tania Alice (França), Farnoosh Fathi (EUA), Ronaldo Ferrito (RJ), Wladimir Cazé (BA), Márcio-André (RJ), Victor Paes (RJ), Suzana Vargas (RJ) e Paulo Scott (RS); um trecho de "Macromundo" pode ser ouvido entre 4'58'' e 5'19'':

Saturday, March 27, 2010

Da esquerda para a direita: Casé Lontra Marques,
Paulo Scott, Tania Alice, Victor Paes, Andréa Stark,
Marcio-André, Wladimir Cazé (em pé); Alexandre
Moraes e Márcio Rufino (agachados)


Foto: Bárbara Cerqueira Cazé

"Macromundo" foi lançado no Rio (mais fotos da noite de recital aqui) e já está oficialmente à venda no site da Livraria Martins Fontes (mas se você for comprar, compre comigo, que é para me ajudar; mande um email: wladimircaze@gmail.com).

"Macromundo" também está no twitter, com links para textos, imagens e áudios.

Próximos lançamentos: Porto Alegre/RS (abril), Vitória/ES (20 de maio) e Salvador/BA (data a definir).

Thursday, March 11, 2010

"Macromundo": lançamento no Rio de Janeiro, 19 de março de 2010, às 18h, na Travessa do Ouvidor (Centro)




















(clique na imagem para ampliar)

Meu livro "Macromundo" será lançado pela editora Confraria do Vento durante o evento “Cidade aTravessa: poesia dos lugares”, que terá leituras, performances e exibição de curtas e ocorrerá na livraria Travessa 1 (Travessa do Ouvidor, 17, Centro, Rio de Janeiro, tel.: 2505-0400).

Aí vai a PROGRAMAÇÃO COMPLETA:

- leitura: Suzanna Vargas (RJ), Paulo Scott (RS), Farnoosh Fathi (EUA), Casé Lontra Marques (ES), Alexandre Moraes (ES), Wladimir Cazé (BA), Ronaldo Ferrito (RJ) e Gustavo Jobim (RJ)

- lançamento de livros:
A densidade do céu sobre a demolição”, de Casé Lontra Marques (R$ 19,00)
A sequência de todos os passos”, de Alexandre Moraes (R$ 19,00)
Graduado em marginalidade”, de Sacolinha (R$ 32,00)
"
Macromundo", de Wladimir Cazé (R$ 19,00)
Blue note insônia”, de Tania Alice Feix (R$ 15,00)

- performance e poesia sonora: Márcio-André, Victor Paes e Tania Alice Feix (França)

- entrevistas ao vivo: Chacal e Carlos Felipe Moisés

- exibição de curtas: “Cinco poemas concretos”, de Cristhian Caseli, “Silêncio”, de Samuel Beckett, e “Anatomy of Dacay”, de Donny Correia

EVENTO: "CIDADE ATRAVESSA: POESIA DOS LUGARES"
DATA:
sexta-feira, 19 de março de 2010, a partir das 18h
LOCAL: TRAVESSA 1
ENDEREÇO: Travessa do Ouvidor, 17, Centro, Rio de Janeiro
TELEFONE: 2505-0400

Wednesday, March 10, 2010

Esta aí é a capa do meu livro novo, com ilustração de Iansã Negrão e projeto gráfico de Márcio-André. A Confraria do Vento já divulgou o preço na página da editora: R$ 19,00 (é barato, vão coçando a carteira...). Para ler um trecho do posfácio de Sandro Ornellas (intitulado “Posfacial”), clique aqui .

Macromundo” será lançado no Rio de Janeiro, na sexta-feira, 19 de março, na livraria Travessa 1 (Travessa do Ouvidor, 17, Centro), juntamente com outros três novos títulos da Confraria do Vento: os livros de poesia “A densidade do céu sobre a demolição”, de Casé Lontra Marques, “A sequência de todos os passos”, de Alexandre Moraes, e o romance “Graduado em Marginalidade”, de Sacolinha.

O evento terá também leitura de poemas com Paulo Scott, Tania Alice, Casé Lontra Marques e Alexandre Moraes, uma entrevista com Chacal e exibição dos curtas experimentais “Cinco poemas concretos, de Cristhian Caseli”, e “Silêncio”, de Samuel Beckett. Ainda não tenho certeza se poderei ir, mas vou me esforçar ao máximo.

Tuesday, March 09, 2010

"Macromundo" está rodando na gráfica... O livro sairá pela Confraria do Vento, com posfácio de Sandro Ornellas e ilustrações de Iansã Negrão, que também ilustrou meu primeiro poemário, “Microafetos” (2005).

vejam uma das imagens de "Macromundo" criadas por Iansã:




breve, aqui no Silva horrida, informações sobre os eventos de lançamento de "Macromundo", no Rio de Janeiro (ainda em março), em Porto Alegre (abril), em Vitória (maio) e Salvador (data a definir).

enquanto o livro não chega, mais um aperitivo:

três poemas dele (“Caracol”,
“Barata” e “Valsa”) ganharam versões sonorizadas, produzidas pelo compositor Heitor Dantas, e podem ser escutadas no Myspace de nosso projeto Vetor, juntamente com outras faixas contendo textos meus.

boa audição!

Saturday, March 06, 2010


“ (...) ninguém migra impunemente. (...) o abandono da querência sempre custa caro. Na troca de uma terra por outra, perde-se um pouco e ganha-se outro tanto. Parte-se por necessidade econômica, para fugir da seca, do frio ou da fome, para escapar de conflitos ou pressões, renovar as raízes, buscar nova identidade. Nesse processo de avanços e recuos, perdas e ganhos, o que sobra é a própria memória; ou, então, uma cultura.

(Geraldo Hasse, “Meus caros pais: uma trajetória migrante”, in: “Migração e identidade – Olhares sobre o tema”, coletânea de artigos organizada por Maria Jandyra Cavalcanti Cunha, São Paulo, Centauro Editora, 2007)

Wednesday, February 17, 2010

Foi (...) a época em que ‘ir embora’ se tornou o pai-nosso-de-cada-dia, o pelo-sinal de cada dia, o feijão com farinha de cada dia. A vida ganhava outro sentido – e esse sentido era a estrada, na verdade uma simples vereda cheia de buracos e atoleiros, por onde os (...) caminhões e automóveis se desgraçavam com teimosia (...)” (p. 116)

Tanta escravidão, quanto sertão, tanto não, quanto nada, tanto agreste, quanta estrada, tanta inundação, quanta malhada, tanta seca, quanta queimada. E as chamas. E as cinzas.” (p. 70)

(
Antônio Torres, em “Adeus, velho”, 5ª. ed., 2005)



Neste romance de 1981, Antônio Torres conta como a numerosa prole do velho Godofredo se dispersa em várias direções, partindo do lugarejo de origem, no sertão da Bahia, “
para tentar a vida em outro lugar”, seja na capital Salvador, seja em outros paradeiros “pelo interior adentro”, buscando não um “interior só de roça, mas um lugarzinho melhor, porque cidade vicia” (p. 67). Uma profusão de histórias e de personagens se entretecem numa trama de monólogos, calcados principalmente em Virinha e Zulmiro e compondo uma polifonia de lembranças, anseios e frustrações que guarda uma dinâmica similar à da cidade de Salvador tal como vista por Zulmiro (“um mundo que marcha aos empurrões, solavancos e cotoveladas, barulhento e aflito”, p. 56). À caracterização árida da cidadezinha da infância e da adolescência dos filhos de Godofredo – “pedregulhos sem futuro, (...) sofrida miragem sobre pastos mirrados, (...) casas caindo aos pedaços, (...) um vasto desengano a perder-se na linha de um horizonte desolado que cerca o nada. ” (p. 8); “um amontoado de casinholas disformes, díspares e desbotadas, um modesto ajuntamento humano que já atendeu pelo nome de povoado, até ser promovido a arraial, passando mais tarde a chamar-se vila e depois, em tempos mais recentes, chegando à moderna condição de cidade” (p. 189) – se sucede, na vida adulta, uma Salvador de “ruas bonitas, como os cartões-postais”, mas “sujas e fedidas” (p. 56), “atulhadas de famintos”, com um “péssimo sistema de esgoto” (p. 81) e que já não dá margem para esperanças ou sonhos de felicidade: “Voltar ao passado era um retorno às radiantes promessas de um futuro que redundara apenas no decepcionante dia de hoje. Se houve alguma vez a ilusão de que existiria sempre uma via-láctea a iluminar o caminho de cada um, agora havia a certeza de que o céu não oferecia o mesmo clarão para todos” (p. 129).

Em depoimento publicado no livro “
Com a palavra o escritor” (Fundação Casa de Jorge Amado, 2002), Antônio Torres explica que todos os seus romances contêm o mesmo núcleo temático: “tento buscar um entendimento do que se passa com os homens que trocam a sua terra por outra e que (...) lá no fundo de si mesmos perdem a que tinham e não conquistam a outra.” (ps. 192-193).

Nota
: Outras três obras de Torres já foram comentadas aqui no Silva horrida: "Um cão uivando para a lua" (1972), "Os homens dos pés redondos" (1973) e "Essa terra" (1976). O plano de leitura da bibliografia completa do autor continuará a ser executado nos próximos meses.

Wednesday, February 10, 2010

“(...) o ideal seria não ter que voltar, enfrentar a viagem como uma fuga radical (...). No fundo, sempre o desejei. Todo mundo quis fazê-lo alguma vez. Todos abominamos o lar confortável, esse domicílio fixo que leva escrito o nome da morte na perfeita tristeza de nossos móveis, na bondade da cama de cada dia, em nossa vida cinzenta de perfeita ordem feliz.” (p. 83)

As pessoas que viajam sozinhas têm um sexto sentido, uma espécie de facilidade ou capacidade de percepção muito superior àquelas que viajam acompanhadas e ficam o tempo todo falando como maritacas e nada percebem, incapazes de captar detalhes (...)” (ps. 131-132)

(Enrique Villa-Matas, “A viagem vertical”)



Barcelona, Porto, Lisboa e Funchal (Madeira) são os cenários por onde trafega Mayol, o personagem principal de Vila-Matas no romance “A viagem vertical” (1999), numa solitária “queda livre e descida vertical em direção ao sul” (p. 131), percurso que é tanto geográfico quanto existencial. Já um ancião de 77 anos, Mayol se vê levado, de um dia para o outro, a exilar-se do terreno firme e familiar de sua Barcelona natal e a iniciar uma “peregrinação ao fundo de si próprio”. Ele escolhe seu itinerário de maneira um tanto aleatória, ao sabor de associações livres e sugestões do acaso: “(...) pensou ter ouvido a palavra Porto. Porto! Acabara de escutar ou acabara de imaginar? Não pensou duas vezes e (...) adquiriu (...) uma passagem de avião para o Porto” ( p. 69). Quando alcança o limite do Atlântico, em Lisboa – uma cidade “Labiríntica (...), triste e cativante (...), elegante em seu serpentear” (p. 131), “ inquietante, onde uma pessoa nunca sabe se está no fim de uma viagem ou em seu ponto de partida” (p. 157) –, só lhe resta seguir adiante em sua “fuga em fim” (p. 84), sua busca da “sabedoria do afastamento” (p. 219), chegando então à Ilha da Madeira. A busca de Mayol é por algo que o narrador define como um “Porto Metafísico” e que aparece às vezes representado pela lendária ilha de Atlântida – idéia com a qual Mayol acaba por identificar-se, deixando-se “levar por sua excepcional capacidade para afundar, (...) tremendo em meio a terremotos e inundações e (...) iniciando sua última descida, (...) afundando em sua própria vertigem, chegando ao país onde as coisas não têm nome e onde (...) não existe mundo, só o abismo (...)” (p. 252).

Nota: Minha Bárbara leu o livro junto comigo e fez bonitas anotações no blog dela, Vinte e Cinco Inquietações. Dois outros livros de Enrique Vila-Matas, "Bartleby e companhia" e "O mal de Montano" já foram comentados aqui no Silva horrida.

Sunday, February 07, 2010

Estou andando a pé por uma cidade impossível de se andar a pé. Que lugar incrível. As vozes na rua são vozes de outro planeta. A sensação é de que estou ouvindo um bando de estrangeiros que de repente aprendeu a minha língua. Ando e penso. Não paro em lugar nenhum. São todos iguais. Cadê o teu dinheiro, São Paulo? (...) Minha miséria atual me obriga a depender de ti (...). Também preciso viver. Preciso fazer uma porção de coisas faturáveis. Tenho tarimba, meu chapa. Conheço alguns macetes.”

(Antônio Torres, em “Um cão uivando para a lua”, 4ª. ed., 2002, ps. 93-94)



Primeiro livro de Antônio Torres, “Um cão uivando para a lua” (1972) centra-se nas desventuras do jovem jornalista T., nordestino vindo do interior para o eixo São-Paulo-Rio-de-Janeiro, no tempo do “Milagre” econômico sob o regime militar. A construção vertiginosa da narrativa – com saltos temporais repentinos e justaposições de monólogo interior, diálogos sincopados e cenas realistas ou alegóricas –, manifesta no próprio texto o estado mental do protagonista, que reprocessa seus 30 anos de vida enquanto se recupera de um colapso nervoso (“um curto-circuito milagroso”, p. 22), voluntariamente internado num sanatório. Paralelamente, o romance intercala momentos de um outro personagem, A., espécie de duplo bem-sucedido de T. que, movido por laços de amizade e reconhecimento profissional, tenta convencê-lo a sair da clínica e aceitar um emprego numa rede de televisão. Em contraste com o confinamento físico a que se submete em seu período de crise psíquica, T. recorda alguns de seus deslocamentos através do país, tanto a trabalho (como no caso da ida ao Ceará ou da travessia da então recém-aberta rodovia Belém-Brasília) quanto numa espécie de versão particular do “desbunde” tão em voga naquela época (a frustrada tentativa de regresso à cidade natal, de carro, pela Rio-Bahia). A relativa reconciliação do protagonista com a “confusão gigantesca” (p. 132) e a “insensibilidade das grandes metrópoles” (p. 161) ocorre, no final do livro, depois de um passeio a pé de Botafogo a Ipanema e do encontro com figuras urbanas emblemáticas (o engraxate, o taxista), que, com histórias pessoais de pobreza, desemprego, resignação e violência, fazem-no reconsiderar sua própria situação: “A cada passo crescia dentro de mim uma nova espécie de torpor. O que é que eu posso fazer aqui fora, no meio de tanta loucura? Os automóveis estão loucos, os táxis estão loucos, os ônibus loucos, as motos loucas, os homens na rua estão loucos. Mas quem está confinado num sanatório? Quem é, oficialmente, com registro e tudo, louco? ” (p. 137). A edição que li (a 4ª, de 2002), contém um prefácio do autor sobre as condições em que o livro foi escrito e publicado (uma entrevista sobre o mesmo assunto pode ser lida no sítio virtual de Antônio Torres).

Tuesday, January 19, 2010

GAIVOTA / GAVIOTA

o velho comparsa Guilherme Darisbo fez outra versão em espanhol do meu pequeno poema "Gaivota" (de "Microafetos", 2005), bastante diferente da que foi feita por Antonio Carlos de Oliveira Barreto e Paula Ruth. sem mais comentários, publico abaixo (para efeito de comparação) o poema original, seguido das duas versões em espanhol.

GAIVOTA

Embora sobrevoe
avenidas e praias
de várias cidades,
atravesse vales
situados longe
e só volte ao mar à noite,
a gaivota gaiata
avista apenas mapas.


Wladimir Cazé


GAVIOTA

Aunque ella vuele
por calles y playas
de tantas ciudades,
travese los valles
muy lejos de aquí
y vuelva al mar solo a la noche,
gaviota chistosa
ve solo los mapas.


Versión en español por Guilherme Darisbo


GAVIOTA

A pesar de sobrevolar
avenidas y playas
de varias ciudades,
atravesar valles
situados lejos
y sólo volver al mar a la noche,
la gaviota payasa
apenas avista mapas.


Versión en español por Antonio Carlos de Oliveira Barreto y Paula Ruth

Wednesday, January 13, 2010



A revista "Bravo!" lançou neste mês de janeiro a edição especial "Bravo! Bahia", enfocando a cultura na Bahia atual. A publicação inclui uma matéria sobre a produção literária contemporânea em Salvador, intitulada "O livro virou Carta e o cordel caiu na rede" e assinada por Ronaldo Jacobina. Eu compareço em dois parágrafos, falando sobre poesia, cordel e os rockcitais de que andei participando no ano passado, juntamente com os parceiros do Corte e da Pastel de Miolos. A reportagem comete um erro grave (o vencedor do prêmio MEC com o livro "Moinhos" foi Mayrant Gallo e não Aleilton Fonseca) e peca pela abordagem superficial, deixando de citar nomes fundamentais, como João Filho (poeta e prosador), João de Moraes Filho (poeta) e Dênisson Padilha Filho (romancista). De qualquer forma, é válida a iniciativa de apresentar um painel da atual produção cultural na Bahia de hoje. Talvez enfim o mercado editorial do Sudeste desperte para o que está acontencendo pelas bandas de cá.

Para ler a matéria,
clique aqui
Quantas vezes (...) já não acordei num quarto de hotel (...) escutando (...) o frêmito do tráfego que passava por mim já fazia horas. Então é esse, eu sempre pensava nessas ocasiões, o novo oceano. Incessantes, em vagalhões, as ondas rolam sobre toda a extensão das cidades, ficam cada vez mais ruidosas, estendem-se cada vez mais além, rebentam numa espécie de frenesi no auge do fragor e correm pelo asfalto e pelas pedras, enquanto novas vagas de ruído desprendem-se de onde eram represadas pelos semáforos. Ao longo dos anos, cheguei à conclusão de que é desse rumor que surge agora a vida que virá atrás de nós e que nos destruirá lentamente, assim como nós destruímos lentamente o que existe há muito antes de nós.

(W. G. Sebald, “Vertigem”, p. 53-54)



Um viajante alemão radicado na Inglaterra perambula solitariamente entre a Áustria e a Itália, registrando pensamentos, recordações pessoais, observações fortuitas, sonhos e anotações sobre pintura e literatura, associados com fotografias, recortes de jornal, cartões postais, bilhetes de trem e outras imagens embutidas no corpo do texto. “All’Estero”, segundo capítulo da obra “Vertigem – Sensações” (1990), de W. G. Sebald, é uma espécie de diário de férias ficcionalizado, de gênero indefinível até para o próprio narrador – como se constata à página 77: “(...) o que eu escrevia naquele momento, (...) eu próprio não sabia direito, mas (...) tinha a crescente sensação de que se tratava de um romance policial”. Dois curtos relatos ficccionais baseados em diários íntimos de personagens reais – “Beyle ou O amor, essa criatura agridoce e irresistível” (conto sobre Stendhal que abre o volume) e “A vilegiatura do Dr. K. em Riva” (sobre Kafka) – têm em comum a abordagem literária da solidão em contraponto com um anseio contínuo e frustrado por amor, fornecendo um tênue fio interpretativo para a compreensão do livro como um todo. O quarto e último texto, porém, “Il ritorno in patria”, desloca novamente o eixo temático de “Vertigem”, agora no sentido do reencontro do narrador com a aldeia de sua infância, na Alemanha do momento imediatamente posterior ao final da 2ª Guerra. A prosa de Sebald segue um percurso quase ensaístico, transitando livremente de uma cena para outra, de um assunto para outro, como se imitasse o pensamento ou a memória em suas digressões involuntárias, nas quais coincidências e acasos têm um peso decisivo.

Saturday, January 09, 2010

Um livro pousou, quase obediente, como uma pomba branca, em suas mãos, as asas trêmulas. À luz mortiça, oscilante, uma página pendeu aberta e era como uma pluma de neve, as palavras nela pintadas delicadamente.” (p. 60)

Os livros saltavam e dançavam como pássaros assados, as asas flamejantes de penas vermelhas e amarelas.” (p. 167)

(Ray Bradbury, “Fahrenheit 451”, tradução de Cid Knipel, Ed. Globo)



A ação do romance “Fahrenheit 451”, de Ray Bradbury (publicado em 1953), transcorre em uma grande cidade dos Estados Unidos, sob um governo tecnototalitário às vésperas de uma guerra nuclear, o qual proíbe a leitura e a circulação de livros e emprega equipes de bombeiros exclusivamente na tarefa de incendiar bibliotecas. Elementos cruciais na composição da trama, os livros comparecem em descrições que os infundem pulsação ou vulnerabilidade, como se se tratassem de animais: “pássaros abatidos” (p. 60), “peixes deixados a secar” (p. 61) ou “um bando de ratos (...) saídos do assoalho” (p. 99) – outros exemplos nas citações do início deste post. No capítulo final, são as pessoas que, ao contrário, se transformam em livros, quase literalmente, ao assumirem as identidades de obras perdidas que estudaram e memorizaram, para transmiti-las pela oralidade a outros indivíduos e, assim, manter de algum modo a tradição letrada de nossa civilização (por exemplo, um ex-professor de política “se torna” a “República” de Platão; outro dedica-se a guardar o “Gulliver” de Swift; e assim por diante).

Friday, January 08, 2010

Para Bárbara


VALSA

Um corpo estelar corre
ao encontro de outro corpo,
cavando órbita no espaço oco,

esbarra em obstáculos líticos,
pedaços de planetas extintos,
passa poços de ar viciado,

espaços sem luz, sem vento,
meteoros parados no tempo,
minúsculos farelos lunares,

mas nada impede o avanço certeiro,
através de todo o universo,
do átomo astral imantado a seu parceiro.


O poema acima é dedicado à minha Barberix, que faz aniversário neste sábado, 9 de janeiro. Na próxima quinta-feira será nosso casamento. Com todos esses motivos para comemorar, gostaria de estar ao lado dela esta noite, para sussurrar ao seu ouvido, com uma voz bem caliente e todo meu portuñol: “la poesía es la unión de um hombre y uma mujer para construir con amor y dolor lo que hace falta para vivir” (Jesús Enrique Barrios).
Uma hormiga no es menos poética que uma estrella, porque en la hormiga también fermenta el cosmos que todo lo contiene. La poesia le da vueltas en la eternidad y la aprisiona como la cáscara al huevo, sin dejar de ser el ovo que inicia y termina adentro y afuera... Como decir lo máximo y lo mínimo.” (Jesús Enrique Barrios, em “De poesía con los poetas”, Fundación Editorial El Perro y La Rana, 2007, p. 20)

Num livrinho do venezuelano Jesús Enrique Barrios com reflexões sobre o ofício da poesia, encontrei a anotação acima, que poderia perfeitamente ser usada como epígrafe em uma edição conjunta dos meus dois livros de poemas, “Microafetos” (2005, Edições K, esgotado) e “Macromundo” (inédito, a ser lançado em 2010 pela Confraria do Vento).

(Aproveito para repetir: um último exemplar de "Microafetos" continua à venda no Sebo do Bac (São Paulo), via Estante Virtual.)
A Terra Crioula é como se fosse uma filha nossa – diz a Sra. Ibéria (...)Assim como a Terra Negra. Ambas pertencem ao mundo que nós criamos. É por isso que nossas relações são tão cordiais, tão afetivas.”

(Antônio Torres, em “Os homens dos pés redondos”, 3ª. Edição, 1999, p. 168)



A ação do romance “Os homens dos pés redondos” (1973), de Antônio Torres, se passa num país imaginário chamado Ibéria, que tem semelhanças tanto com o Brasil do período militar quanto com o Portugal tardiamente sob regime filo-fascista do começo dos anos 70 (às voltas com as guerrilhas por independência em Angola, Guiné-Bissau e Moçambique). O autor cruza referências e vocabulário lusos (“tasca”, “gajo”) e brasileiros (“meu chapa”, “aipim cozido, cuscuz e canjica”) para criar um espaço ficcional híbrido. “Paname”, nome da “louvada e gloriosa” (p. 132), “efervescente e cortejada” (p. 136) capital de Ibéria, parece aludir à idéia de uma “Panamérica” (e, talvez, ao título do romance de José Agrippino de Paula lançado seis anos antes). Os personagens centrais de “Os homens dos pés redondos” são apresentados conforme sua posição hierárquica na “firma Fernandes & Fernandes, Negócios Bancários”, gradualmente, desde o nível inferior até o mais alto – primeiro o funcionário subalterno Manuel Soares de Jesus, depois seu chefe, o escritor Adelino Alves, e por fim o banqueiro e industrial Fernandes (todos os três de algum modo relacionados com um quarto personagem, o publicitário Estrangeiro, que transita pelos diversos ambientes da história sem pertencer a nenhum deles). A história progride de maneira caleidoscópica, com uma sucessão de trechos de discurso interior (manifestando os pontos de vista de uma galeria de personagens, inclusive de figuras secundárias), diálogos dinâmicos e relatos onírico-alucinatórios.

Monday, January 04, 2010

sertão do mundo

O sertão está em toda parte” (p. 24), “o sertão é do tamanho do mundo” (p. 89), “cidade acaba com o sertão. Acaba?” (p. 183), “(...) Sertão sempre. Sertão é isto: o senhor empurra para trás, mas de repente ele volta a rodear o senhor dos lados” (p. 302), “Agora, o mundo quer ficar sem sertão. (...) Se um dia acontecer, o mundo se acaba” (p. 305), “Sertão: é dentro da gente” (p. 325), “Esse sertão: esta terra” (p. 336), “(...) o sertão do mundo” (p. 359), “o sertão é sem lugar”, “Sertão (...) o senhor querendo procurar, nunca não encontra. De repente, por si, quando a gente não espera, o sertão vem” (p. 397), “O sertão é bom. Tudo (...) é perdido, tudo (...) é achado. (...) O sertão é confusão em grande demasiado sossego...” (p. 470), “(...) o mais esse sertão tem de ver, quem mais abre e mais acha!” (p. 471), “O sertão tudo não aceita?” (p. 503), “O sertão aceita todos os nomes (...)” (p. 506), “O sertão não tem janelas nem portas” (p. 511), “(...) sertão são” (p. 514), “o sertão é grande ocultado demais” (p. 521), “o sertão está movimentante todo-tempo (...)” (p. 533), “No sertão tem de tudo” (p. 544), “O senhor faça o que queira ou o que não queira – o senhor toda-a-vida não pode tirar os pés: que há-de estar sempre em cima do sertão” (p. 548), “Sertão velho de idade. (...) o sertão vem e volta. Não adianta se dar as costas. Ele beira aqui, e vai beirar outros lugares, tão distantes. (...) Sertão que se alteia e se abaixa. Mas que as curvas dos campos estendem sempre para mais longe” (p. 558), “(...) longe, longe, até o fim, como o sertão é grande...” (p. 577)

(João Guimarães Rosa, trechos coletados em lenta releitura do “Grande sertão: veredas”, realizada nos dois últimos anos, boa parte da qual a meia voz, na 19ª edição, Nova Fronteira, 2001)

Thursday, December 24, 2009

CINCO POEMAS EN ESPAÑOL

Durante o Festipoesia en Cartagena (Colômbia), pude apresentar alguns de meus poemas na versão em espanhol gentilmente preparada por Antonio Carlos de Oliveira Barreto e Paula Ruth, ele brasileiro e ela argentina. O trabalho dos dois foi revisado por mim e contou com valiosas correções do uruguaio Wilson Javier Cardozo e do venezuelano Tomás Rosario Vargas.

(A propósito, encontrei mais um texto sobre o Festipoesia na rede,
"El 13º Festival de poesía tiene una pléyade de invitados de todo el mundo", açucarada matéria do diário cartagenero "El Sol".)

Agora fiquem com meus cinco poemas en español, os quatro primeiros do livro esgotado "Microafetos" (2005) e o quinto, do livro inédito "Macromundo", a ser lançado em 2010. (Para quem se interessar, um último exemplar de "Microafetos" continua à venda no
Sebo do Bac (São Paulo), via Estante Virtual.)


GENERACIÓN

Descansa el incendio
dentro del huevo.
Una fénix en reposo.

Crepúsculo inmaduro.
Pared desnuda.
Paisaje en la paleta.

Raíz probeta.
La planta todavía
está en su pétalo.

Plumas innatas
de ave en su cáscara.
Una flama intacta.


MIGRACIÓN

Serpiente parecida
a una raíz escondida
escoje el trámite.

Sirve de comer tierra,
para no sentir dolor.


GAVIOTA

A pesar de sobrevolar
avenidas y playas
de varias ciudades,
atravesar valles
situados lejos
y sólo volver al mar a la noche,
la gaviota payasa
apenas avista mapas.


MUJER SOBRE LA TIERRA

La mujer bajo el prisma
de la jaula de flores
no canturrea fugas.

A pesar de tener plumas
no tiene alas, sus dedos
dispiensan miedos.

Pero su rostro se colorea,
esfera encendida:
dejar de estar presa.

Sentada en su silla
que ahora gana ruedas,
el sol le abre las puertas.


MADRE NATURALEZA VIVA

La Madre Naturaleza Viva
pasa, pájara de agua,
por dentro de olas de fuego,
llevando su pequeño
(en el capullo bajo sus alas)
para el nido y el reposo.

Valiente, el ave defiende
de las amenazas del mundo
al recién nacido.
Frutas extrae de su cabello
para servirlo de sustento.
Por la noche, vela por su sueño.

Cuando el planeta amanece
al infante ella le ofrece
interestelar alimento.


Poemas de Wladimir Cazé
Versión en español por Antonio Carlos de Oliveira Barreto y Paula Ruth

Wednesday, December 23, 2009

fragmento de um moleskine surrado

22.12.2009. Andei como um nômade indômito por uma urbe obscura, sem memória das outras urbes onde recentemente estivera, sem vínculo com lugar algum – os aeroportos quase meus lares –, num vaivém até confins a explorar novas paragens. Foram semanas levitando ao sabor do acaso, de hotel em hotel, conduzido até onde me levava o vento, tentando deter o pensamento em algum traço no papel – em vão –; minhas emoções não se exteriorizavam, um turbilhão sensorial desprovido de foco preciso; meu olhar resvalava sobre a superfície das coisas, fotografava-as sem captar sua estrutura íntima, imerso na voragem consumista que tudo nivela e anestesia. Nada me destravava as sinapses, embora o atropelo de acontecimentos me sacudisse a percepção. Mas enfim pude me instalar na ponta continental da pequena capital-ilha-aterros, desinteressado em viajar para fora dali por vários meses a fio, necessitado de recobrar fixidez.

Sunday, December 06, 2009

Poetas del mundo en Cartagena

El brasileño Vladimir Cazé dice que existe un estereotipo con su país relacionado con la música, la danza y el universo afroamericano, pero confiesa que hay caracteres diferenciales en el mismo país, una introspección y una búsqueda interior que se refleja también en el quehacer poético.

O jornalista e escritor Gustavo Tatis, do “El Universal” (Cartagena de Indias, Colombia), publicou a matéria
“Poetas del mundo en Cartagena”, sobre o festival de poesia que chegou ao fim ontem (clique no link para ler). Agora me preparo para a segunda etapa da viagem, mais curta, em Bogotá. Depois pretendo escrever detalhadamente sobre Cartagena e o festival. Abaixo, foto dos poetas participantes publicada por “El Universal” (com o Castillo de San Filipo de Barajas ao fundo):


Tuesday, November 24, 2009

Complemento necessário ao post anterior

A participação de poetas da Bahia no Festival Internacional de Poesía en Cartagena já é tradição desde 2006, quando Damário Dacruz lá esteve pioneiramente, levando livros e originais de mais de 40 autores para divulgá-los durante o evento. Nos anos seguintes, João de Moraes Filho, Douglas de Almeida, Wesley Correia (todos em 2007) e Geraldo Maia (2008) também participaram do Festipoesia. O evento é dirigido por Martins Sallas e representado no Brasil por João de Moraes Filho, responsável pelo convite para que eu e Antonio Barreto pudéssemos participar. Deixo aqui agradecimentos a todos esses precursores e a esperança de que a parceria Bahia/Bolívar* continue por bastante tempo, com a presença de muitos outros poetas baianos.

* Bolívar é nome do departamento (estado) colombiano do qual Cartagena de Indias é capital.

Friday, November 20, 2009


Dentro de poucos dias, viajo pela primeira vez para a Colômbia, para participar do 13º Festival Internacional de Poesía en Cartagena, que acontece de 1º a 5 de dezembro na cidade de Cartagena de Indias, às margens do Mar do Caribe. Estarão por lá poetas de El Salvador, Uruguai, Chile, Costa Rica, Porto Rico, Haiti, Venezuela, Itália, Japão, Romênia e Noruega, além do compay Antonio Barreto. A programação terá recitais em teatros, escolas, universidades, bibliotecas, parques e centros culturais. Também passarei uns dias em Bogotá.

Nas revistas de turismo do Brasil, há atualmente um modismo pela Colômbia: desde o mês passado, quatro revistas do gênero fizeram chamadas de capa citando o país (nenhuma, porém, como matéria principal): a "Viaje Mais" ("Colômbia: Das montanhas ao Caribe, um país que surpreende", na edição de novembro), a “Viajar pelo Mundo” (“50 motivos para se encantar pela Colômbia”; novembro), a "Viagem e Turismo" ("Colômbia: A grande pedida para queimar suas milhas"; novembro), e a "Próxima Viagem" ("La noche em Bogotá: 168 horas pelas baladas, cafeterias e museus da cidade colombiana"; outubro).

(Evidentemente, essa onda não é espontânea, mas resultado da vigorosa campanha de promoção desenvolvida pelo Proexport Colombia para desfazer a imagem de lugar perigoso e violento e para divulgar o potencial turístico do país. O slogan da campanha é “Colômbia: o perigo é você querer ficar”).

A reportagem da "
Viagem e Turismo" (“A segunda chance, ps. 100-109) é pouco inspirada. A “Viajar pelo Mundo” produziu apenas um miniguia (não assinado), com tópicos de destaque. A boa reportagem de
Maurício Moraes para a “Viaje Mais" (“Colômbia: destino para todas estações”) indica a Biblioteca Luís Angel Arango e a Biblioteca Nacional, ambas em Bogotá. Também gostei de “Bogotá superchevere”, reportagem de Ronaldo Bressane para a "Próxima Viagem", única que traz a importante instrução de como se localizar pelas ruas numeradas da capital: “De cima para baixo, de leste a oeste, estão as carreras; do sul ao norte, da direita para a esquerda, as calles” (p. 74). Bressane sugere três leituras para acompanhar passeios pela metrópole andina,“a revista Semana, o tablóide cultural Arcadia ou a excelente Malpensante” (p. 76), que com certeza serão minhas primeiras aquisições ao desembarcar.

Monday, November 16, 2009

Descobrindo o mundo e suas bibliotecas

Devo à Biblioteca Municipal de Petrolina, no interior de Pernambuco, o fato de ter me apaixonado por literatura ainda na infância. Graças a meu pai e minha mãe, livros sempre fizeram parte de meu mundo: nossa casa tinha volumes espalhados por todos os lados e eu sempre tive acesso a obras infantis ilustradas e histórias em quadrinhos. Levado por pesquisas e trabalhos escolares, passei, em meados dos anos 80, a freqüentar a biblioteca pública da cidade onde nasci e daí em diante fui definitivamente capturado pela mágica e borgiana teia de palavras que se estende até o infinito... Enciclopédias, lendas indígenas e as aventuras criadas por Júlio Verne eram minhas preferências nesse tempo.


Foi nessa biblioteca que, já ousando iniciar-me nos tortuosos caminhos da poesia, cometi meu primeiro e único roubo de um livro: um dicionário de rimas, que, num descuido dos funcionários do setor de livros adultos, atirei pela janela e fui buscar no meio do mato que ficava atrás do prédio. (Logo depois, ao ensaiar alguns versos, a facilidade artificial das listas de rimas do dicionário me incomodou e devolvi o volume à prateleira da biblioteca, decidido a buscar minhas rimas por conta própria, recorrendo à memória e à intuição.)


A segunda biblioteca que freqüentei foi em Salvador, durante o terceiro ano colegial, no antigo Colégio Alfred Nobel. Era apenas uma modesta biblioteca escolar, mas que contribuiu sobremaneira com a minha formação literária por conter (o que hoje me parece surpreendente) alguns livros com a poesia marginal de Leminski, Waly e Chacal, entre outros, que, junto com as melodias impecáveis de Cecília Meireles, me fizeram negligenciar os estudos para o vestibular.


Em 1993, fui parar na Biblioteca Pública do Estado da Bahia, ao mesmo tempo em que também começava a desbravar o centro da cidade de Salvador. Antes de passar a freqüentar a “Biblioteca dos Barris”, meu circuito cotidiano era muito restrito, indo somente do Candeal (onde morava) ao Itaigara (onde estudava). Daí em diante, meus horizontes se alargaram radicalmente. No setor circulante da biblioteca, mergulhei em ficção brasileira pós-moderna, com Rubem Fonseca, Sérgio Sant’anna, Moacyr Scliar, João Gilberto Noll e muitos outros. Em plena adolescência, a “Biblioteca dos Barris” representou para mim tanto a descoberta da literatura brasileira contemporânea quanto a descoberta do centro da grande cidade para onde me mudara no começo da década e que ainda não conhecia propriamente.


Dentre todas as leituras que fiz nesse período, a que mais marcou minha trajetória de leitor e aspirante a escritor foi certamente “Cara-de-Bronze”, de Guimarães Rosa. Esse texto, que pertence ao livro “No Urubuquaquá, no Pinhém”, é uma estranha mescla de conto, poema, roteiro de cinema e experimentalismo sem concessões. É nele que aparece o famoso neologismo multi-idiomático “moimeichego” (junção das palavras “moi” + “me” + “ich” + “ego”, correspondentes ao pronome “eu” em francês, inglês/espanhol, alemão e latim).


“Cara-de-Bronze” conta a história de um velho fazendeiro que dá ordens a um de seus vaqueiros para que percorra os sertões de Minas Gerais em busca do misterioso “quem das coisas”, algo que o narrador jamais explica o que seja, mas que implicitamente compreendemos: “O que não se vê de propósito e fica dos lados do rumo. Tudo o que acontece miudim, momenteiro. Ou o que vive por si (...) Uma virtudinha espritada, que traspassa o pensamento da gente – atravessa a idéia (...) E bonitas desordens, que dão alegria sem razão e tristezas sem necessidade. (...) Não-entender, não-entender (...) o quem das coisas! (...) o que no comum não se vê: essas coisas de que ninguém faz conta... (...) Tirar a cabeça, nem que seja por uns momentos: tirar a cabeça, para fora do dôido rojão das coisas proveitosas.” (Guimarães Rosa, “Cara-de-Bronze”)


Todas essas definições ou descrições se aplicam à própria poesia, o que torna “Cara-de-Bronze” uma espécie de declaração de princípios rosiana – com direito a um conselho quase didático: “(...) ver, ouvir e sentir. E escolher (...)”. Essa leitura me deixou perplexo e apontou rumos que persigo até hoje em minha escrita pessoal. O apagamento das fronteiras estilísticas entre conto, poema e outras formais textuais, manifestado por “Cara-de-Bronze”, é um traço presente em tudo o que tenho escrito. Até mesmo meu trabalho com literatura de cordel é fruto de um desejo de combinar poesia e narrativa no mesmo texto.


Anos depois, tive a satisfação de descobrir uma biblioteca pública no novo bairro para onde tinha me mudado: a Biblioteca Thales de Azevedo, no Costa Azul. Lá deparei-me com o indispensável “Retrato do Brasil – Ensaio sobre a tristeza brasileira”, de Paulo Prado, um breve estudo de 1928 sobre a formação da identidade e o perfil psicológico do nosso povo. Depois vieram outras bibliotecas, em outras cidades, pois visitas a bibliotecas são sempre um item indispensável em meus roteiros de turista nas viagens que eventualmente tenho a oportunidade de fazer. Para um leitor compulsivo, viajar também é passar uma ou duas tardes explorando os acervos da Biblioteca Nacional e do Gabinete Portuguez de Leitura (no Rio de Janeiro), da Biblioteca Sergio Milliet do Centro Cultural Vergueiro (São Paulo), da Biblioteca Municipal e Central de Lisboa, da Biblioteca Municipal Camões (Lisboa), da sofisticada Biblioteca Municipal Almeida Garrett (n’O Porto) ou da labiríntica New York Public Library.


Hoje já tenho minha própria biblioteca particular, com uma quantidade considerável de livros que ainda não li e que venho percorrendo aos poucos. A correria da vida cotidiana e as distâncias urbanas (trabalho no aeroporto) não mais permitem que eu freqüente a “Biblioteca dos Barris” com a mesma assiduidade que há 10 anos. Mas tenho um grande motivo para ainda freqüentar a “Biblioteca dos Barris” esporadicamente: o raríssimo romance “Riverão Sussuarana” (Record, 1977), de Glauber Rocha, do qual há um exemplar num setor da biblioteca onde os livros só podem ser consultados no próprio local. Sempre que posso, vou lá, nas manhãs de sábado, para ler mais algumas páginas dessa que é a única obra de ficção publicada por Glauber (e que, tal como “Cara-de-Bronze”, também é um texto fronteiriço, com elementos de romance, depoimento autobiográfico, roteiro de cinema e experimentações variadas). O livro (infelizmente) nunca foi reeditado e o exemplar da “Biblioteca dos Barris” deve ser um dos poucos (se não for o único) em um acervo aberto ao público, em toda a Bahia.


Dicas de leitura:


No Urubuquaquá, no Pinhém”, de João Guimarães Rosa (Nova Fronteira)
Riverão Sussuarana”, de Glauber Rocha (Record, 1977)


Texto encomendado, há alguns meses, por Mayrant Gallo para uma publicação que acabou não vingando

Monday, November 09, 2009

"No bairro Jardim da Penha, a ocupação residencial tem início com a construção - pela iniciativa do poder público e do setor privado - de conjuntos habitacionais de três pavimentos durante a década de 1970. (...) Esses conjuntos habitacionais foram construídos com o objetivo de atender às necessidades de moradia da população de baixo poder aquisitivo. 'Mas, em função da implantação de serviços de infra-estrutura urbana e localização de determinados equipamentos, a região alcançou índices de valorização de tal ordem que não permitiu sua apropriação pela população à qual o programa visava contemplar' (Mendonça, 1985, p. 40)."

(Eduardo Rodrigues Gomes, "A geografia da verticalização litorânea em Vitória: o bairro Praia do Canto", GSA/Prefeitura Municipal de Vitória, 2009, p. 65)

"Em Jardim da Penha, a verticalização das construções encontrou forte resistência por parte da Associação de Moradores (AMJP), que tentaram - e conseguiram - manter (através de uma forte mobilização) o gabarito, para no máximo quatro pavimentos no interior do bairro (...), liberando o gabarito somente para sua orla."

(Eduardo Rodrigues Gomes, id., p. 67)


foto do Jardim da Penha: Edson Reis (clique na imagem para ampliá-la: no alto, à direita, o Aeroporto de Vitória; no alto, à esquerda, o campus da Universidade Federal do Espírito Santo; na lateral direita, a praia de Camburi)

a dissertação de mestrado em geografia de Eduardo Rodrigues Gomes, defendida em 2004, foi lançada em livro há alguns meses. o trabalho inventaria as principais transformações do espaço urbano em Vitória ao longo do século passado (pontes, aterros, etc.), destacando o processo de verticalização das construções residenciais, inicialmente no centro da cidade e, nas últimas quatro décadas, na parte norte-leste do município, situada no litoral. especificamente com relação à Praia do Canto - um dos bairros mais valorizados de Vitória (projetado com o nome de "Novo Arrabalde", em 1896, e executado a partir dos anos 1920) -, o estudo revela como o marketing imobiliário atuou na construção do espaço urbano, favorecendo-se da proximidade do mar para a comercialização de apartamentos residenciais em prédios cada vez mais altos (ao contrário do que houve no Jardim da Penha).

nota: de acordo com dados do IBGE (do Censo 2000) publicados em tabela na página 22, o Jardim da Penha é o bairro mais populoso da capital capixaba, com 24.623 habitantes.

pós-escrito em 21 de dezembro: na página da Prefeitura de Vitória há um texto com mais algumas informações sobre a história do Jardim da Penha (por exemplo: "A Empresa capixaba de Engenharia e Comércio idealizou a área inspirada no traçado da cidade de Belo Horizonte, considerada, até então, modelo de modernidade. (...) A região da Adalberto Simão Nader até o Canal de Camburi foi desenhada em largas avenidas diagonais, formando 13 quadras.").

Wednesday, November 04, 2009



o livro mais comentado e um dos mais vendidos por estas bandas atualmente intitula-se "Espírito Santo" (Objetiva, 2009). escrito por Luiz Eduardo Soares, Carlos Eduardo Ribeiro Lemos (juiz) e Rodney Rocha Miranda (secretário estadual de segurança pública), o livro relata, com base em documentos oficiais mas de forma romanceada, a história recente (que teve atuação destacada dos três autores) do combate ao crime organizado no estado que chegou a ser conhecido como "território livre da corrupção e da violência" (p. 179). chamou-me a atenção a ficha catalográfica (p. 235), que classifica a obra como de ficção: "1. Juízes - Brasil - Ficção. 2. Crime organizado - Investigação - Espírito Santo - Ficção. 3. Ficção brasileira." a ênfase no aspecto ficcional da narrativa parece querer isentar os autores de eventuais processos por difamação (réus que até agora ainda não foram julgados aparecem com nomes modificados), enquanto as citações de relatórios, depoimentos, ofícios, etc. garantem a credibilidade do relato. assim, o livro se situa prudentemente entre os fatos e sua interpretação.

Monday, October 26, 2009

Meu comentário sobre os contos de Lima Trindade virou um breve artigo, publicado na seção "Livros" da revista eletrônica Germina. Pretendo continuar a escrever minirresenhas de algumas obras literárias da atual produção baiana, à medida que as for lendo. A distância geográfica talvez me permita o enquadramento crítico adequado. Portanto fiquem ligados neste blog. A proxima vítima pode ser você (risos).

Sunday, October 25, 2009

Vetor (no Myspace)


Há pouco mais de um ano, eu e o músico/compositor Heitor Dantas começamos a fazer gravações de poemas meus (lidos por mim mesmo), com intervenções sonoras (a cargo dele). Trabalhamos com poemas preexistentes, mas também - às vezes em parceria com Heitor - escrevi textos especialmente para o projeto (intitulado Vetor). Por força das circunstâncias, tivemos que interromper temporariamente os trabalhos, que serão retomados em outro momento.

Como resultado desse primeiro ano de atividade, temos seis faixas, que foram publicadas em nossa página do Myspace. Convido meus virtuais leitores a visitá-la e a escutar esses experimentos em poesia sonora.

"Somos som" e "Mãe café" são textos criados especialmente para o projeto Vetor. "Gumes de sal e de luz" pertence a meu livro "Microafetos" (Edições K, 2005). "Barata", "Caracol" e "Valsa" pertencem a meu segundo livro de poemas, "Macromundo", a ser lançado em 2010 pela Confraria do Vento.

nota: a imagem que ilustra este post é de autoria de Iansã Negrão (ilustradora oficial de meus livros de poesia) e também pertence ao livro "Macromundo".

Tuesday, October 20, 2009

"Vitória, com seus 314 042 habitantes (é a quarta capital menos populosa do país) (...) No quesito saúde (...) é a 1ª da lista, ou seja, tem o maior número de leitos e profissionais de saúde para cada 1 000 habitantes. No aspecto econômico, saltou do 5º para o 2º lugar, embalada por investimentos milionários na indústria de base, leia-se Vale e Petrobras." (revista "Você S/A", nº 121, julho 2008, p. 36-37).

nota: na tabela "As 100 melhores cidades brasileiras para fazer carreira" (p. 35), Vitória aparece em 3º lugar (Salvador, em 15º).

Tuesday, October 13, 2009

"(...) Os indicadores sociais mostram um bom posicionamento do estado no contexto nacional. O Produto Interno Bruto (PIB) per capita capixaba foi de R$ 13.847 em 2005 - o 5º maior dentre os estados brasileiros -, bem acima dos R$ 11.658 do Brasil. (...) o IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) capixaba foi de 0,802, em 2005 (...), ao passo que este indicador foi de 0,794 para o Brasil." ("Economia Capixaba: Destaques do Espírito Santo", in: "200 maiores empresas do Espírito Santo 2008", ps. 194-195).

nota: de acordo com tabela na página 195, o IDH (2005) do Espírito Santo foi o sétimo colocado no ranking nacional, depois de Distrito Federal, Santa Catarina, São Paulo, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Paraná. A Bahia ocupa a 19ª posição.