Silva horrida - Guia de cidades

DESCRIÇÃO PRÁTICA E POÉTICA DO TERRITÓRIO OCUPADO

Wednesday, July 01, 2009

Entrevista sobre cordel e poesia contemporânea

O site Passeiweb publicou uma entrevista comigo, feita por Leonardo Campos, estudante de Letras Vernáculas com Habilitação em Inglês na UFBA. Um trecho: "A convergência (...) de (...) linguagens é um caminho que tanto poetas de cordel quanto poetas pós-construtivistas brasileiros contemporâneos estão tomando, apropriando-se de novas ferramentas (como o PDF, o MP3 e o Youtube) para veicular literatura". Para ler a íntegra da entrevista clique na logo do Passeiweb, aí ao lado.

Tuesday, June 30, 2009

A vanguarda ficou diante do silêncio e do vazio. (...) os que não silenciaram passaram a se mover num campo que já não é o da vanguarda. Por um motivo simples: hoje, é difícil dizer não só onde está a linha dianteira, mas também saber: dianteira do quê? As coisas se pulverizaram. Para que exista vanguarda, é preciso que haja um espaço cultural ordenado, balizado com nitidez. Mas hoje nós estamos vivendo num mundo culturalmente desordenado, descentrado, múltiplo. (...) A própria proliferação de linguagens e meios impede a cristalização de propostas num projeto único. O que fica, então, para nós, não é a vanguarda. O que pode e deve ficar é o seu legado central: a liberdade da linguagem, o cultivo de uma inquietude essencial e a disposição para a criação permanente do novo.

(Antonio Risério, em entrevista publicada no livro “Antonio Risério”, coleção Encontros, Azougue, 2009, ps. 176-177)

em 13 entrevistas publicadas nas décadas de 80, 90 e 00 na imprensa (em revistas e diários baianos, paulistas e paranaenses), mas também em livro, suplementadas por uma conversa coletiva, com oito interlocutores (registrada em 2008 especialmente para o volume), o poeta, antropólogo e ensaísta Antonio Risério fala sobre cultura baiana e brasileira (com ênfase na idéia de mestiçagem), contracultura, poesia “em contexto digital” e muitos outros assuntos, em particular o racialismo neonegro (e a excessiva e demagógica reverência do Estado a discursos e programas político-acadêmicos com esse teor). O trecho acima (da entrevista de 2008) – apesar de não propriamente refletir a diversidade de ângulos e as agudas análises dos mais variados tópicos que Risério elabora em suas respostas, nem sua peculiar trajetória intelectual (que transparece na disposição cronológica das entrevistas do livro, característica da coleção Encontros) – está destacado neste blog por condensar uma posição sobre a atualidade das vanguardas com a qual manifesto alguma concordância. Adiciono aqui a hipótese de que a citada “disposição para a criação permanente do novo” seja hoje uma postura transversal, que, estimulada por conceitos e procedimentos das tradições de vanguarda do século 20 e favorecida pela “proliferação de linguagens e meios”, atravessa a multiplicidade de segmentos culturais que convivem no ambiente global e conforma zonas de interseção entre esses segmentos e criações imaginárias híbridas, resultantes de investigações e programas que, em alguns casos, ainda caberia classificar como de vanguarda.

texto republicado no blog da editora Azougue

Monday, June 22, 2009

"O melhor da festa" (Nova Roma, 2009)

O livro "O melhor da festa" (Nova Roma, 2009, 134 p.), organizado por Fernando Ramos, é uma amostragem da atual produção literária no Rio Grande do Sul, contendo contos, microcontos, poemas, crônicas e artigos de 33 escritores gaúchos de opções estéticas bastante diversificadas. O critério de seleção dos autores foi a presença de todos na 1ª FestiPoa Literária, em março de 2008, em Porto Alegre - o que explica três ilustres exceções no volume: os "transnordestinos" Marcelino Freire, Lima Trindade (brasiliense radicado em Salvador) e Sandro Ornellas (outro brasiliense radicado em Salvador, atualmente em temporada carioca), que participaram do evento como convidados de fora.

No interessante artigo "Crítica literária (e jornalismo cultural)", em que discute as condições para o exercício da crítica no Brasil de hoje, Luís Augusto Fischer caracteriza o Rio Grande do Sul, ao lado de Pernambuco e em comparação com os centros hegemônicos (Rio de Janeiro e São Paulo), como uma província "com vida relativamente autônoma, com lastro local reconhecível", cuja "identidade local (...) reativa a um nacionalismo frustrado, é fortemente recalcada e por isso mesmo fortíssima" (p. 64).

No âmbito da literatura, o estado capitaneado por Porto Alegre é sem dúvida um dos circuitos mais bem estruturados do país, com personalidade própria e atividade intensa. Tomado como possível exemplo desse fato, "O melhor da festa" tem sua força fundamentada não na qualidade ou no brilho individual de cada um dos textos, mas na vitalidade do conjunto, que, embora seja oscilante como em qualquer coletânea, se mantém constante ao longo do livro.

Cinismo, hedonismo e individualismo, marcas da literatura nascida em contextos urbanos contemporâneos, desfilam com ironia em dois dos contos mais bem resolvidos do volume, "Os dez mandamentos", de Flávio Ilha, e "Serão", de Luís Dill. No segundo texto, a situação relatada poderia se referir a qualquer grande cidade, mas é mesmo Porto Alegre (sutilmente reconhecível em palavras como "vila" e "churrasco") que é retratada como cenário de um cotidiano sombrio, propenso à violência gratuita.

A modernidade da capital gaúcha também é capturada, em "O melhor da festa", por textos tributários às vertentes literárias pop (em momentos maneiristas e pouco inspirados, assinados por Reginaldo Pujol Filho e Sidnei Schneider) e junkie (Marcelo Benvenutti). Na dimensão oposta, um certo ar interiorano e nostálgico comparece em contos como "Mijo bento", de Alexandre Florez, e "Nonoai", de Leandro Malósi Dóro.

Essas dimensões distintas são de certo modo combinadas, com efeito dramático, em "A caixa", de Pedro Gonzaga, o conto mais bem construído da coletânea. Aqui o retorno do narrador à casa de veraneio de sua infância se dá em meio a um suspense e a uma pulsão erótica que tornam a história irresistível. A aparição de um gambá (ao mesmo tempo singelo e ameaçador), no momento culminante da trama, prepara de maneira precisa a frustração final do personagem.

Entre os poetas, Everton Behenck se destaca com o poema sem título das páginas 35 e 36, que se ocupa "do que há embaixo / da pele", do "subcutâneo", "do que é submerso" e "não chega à tona". Eis um autor que utiliza com propriedade o verso curto (recurso tão banalizado na poesia de nossos tempos).

Estas são apenas algumas anotações breves sobre o livro, no intuito de convidar o leitor a curtir "O melhor da festa". A companhia é boa e a farra é certa.

texto publicado na revista eletrônica de cultura e literatura Verbo 21

Wednesday, June 17, 2009

Em agosto

Falta um mês e meio, mas já adianto que no dia 3 de agosto participarei do "I Encontro Literário da UEFS: (Re)leituras contemporâneas", no Anfiteatro – Módulo II da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS).

Na mesa que tem por título "A palavra e o corpo: a literatura como performance" (das 16h às 17h30), estarei ao lado dos caros Adelice Souza, Dênisson Padilha Filho, Gustavo Rios e Katherine Funke. Ao final do evento, eu, Gustavo e Katherine faremos um quase-recital com nossos textos e música.

Mais informações no site da UEFS.





Tuesday, June 09, 2009

"Indústria da seca": WC + Pastel de Miolos



"INDÚSTRIA DA SECA"
Textos: Wladimir Cazé (trecho do cordel "A filha do Imperador que foi morta em Petrolina" e de prosoema inédito)
Música: "Indústria da seca" (Pastel de Miolos)
Guitarra: Allisson Lima
Baixo: Alex Costa
Bateria: Wilson Santana
Filmado na Midialouca, Rio Vermelho, Salvador, Bahia, Brasil, 30 de maio de 2009

Tuesday, June 02, 2009

Comparsas em ação: Sandro Ornellas + Lima Trindade + Pastel de Miolos

Confira 2 vídeos do 2º Rockcital Corte + Pastel de Miolos, ocorrido no sábado passado. Temos fotos aqui + ali. (Claudinho também filmou tudo, com melhor qualidade; logo divulgaremos esse material). Em breve, deve rolar outra sessão de literatura + rock. Fique atento.




"ESPERAR SENTADO/ALGUMA COISA"
Poema: Sandro Ornellas ("Alguma coisa", do blog Simulador de Vôo)
Música: "Esperar sentado" (Pastel de Miolos)
Guitarra: Allisson Lima
Baixo: Alex Costa
Bateria: Wilson Santana
Filmado na Midialouca, Rio Vermelho, Salvador, Bahia, Brasil, 30 de maio de 2009




"QUEEN SALLY II"
Conto: Lima Trindade ("Queen Sally II", fragmento do livro "Corações blues e serpentinas", 2007)
Música: "Opressão" (Pastel de Miolos)
Guitarra: Allisson Lima
Baixo: Alex Costa
Bateria: Wilson Santana
Filmado na Midialouca, Rio Vermelho, Salvador, Bahia, Brasil, 30 de maio de 2009

Wednesday, May 20, 2009

POESIA E ROCK NO RIO VERMELHO: sábado, 30 de maio, às 19h, na Midialouca


O trio punk rock Pastel de Miolos, o poeta Nelson Magalhães Filho e o quinteto de escritores Corte (Katherine Funke, Gustavo Rios, Sandro Ornellas, Lima Trindade e Wladimir Cazé) apresentam um "rockcital" (quase-recital de poesia e rock) na Midialouca do Rio Vermelho, no sábado, 30 de maio, às 19h. No show, a energia e a sonoridade pesada da Pastel De Miolos se somam à modernidade urbana da literatura baiana contemporânea. A entrada é franca.

Os autores do Corte abrem a sessão com inserções literárias entre as canções próprias e clássicas do rock nacional e estrangeiro pinçadas do vasto repertório da Pastel De Miolos. Depois, o contista Diogo Costa, segundo convidado da noite, também contracena com o som da banda. Por fim, o poeta e artista visual Nelson Magalhães Filho entra no palco da Midialouca, com sua poesia e visceralidade inatas, para uma jam session com acompanhamento dos músicos.

O show também terá a participação de algumas figuraças do rock baiano: Jair (Declinium), Elmo (Opus Incertum) e Rodrigo Rocha (The Black Mountain Group). Além de composições da Pastel de Miolos, constam no setlista da noite covers como "Who loves the sun" (Velvet Underground), "Here comes your man" (Pixies), "Break on trough" (The Doors), "Até quando esperar" (Plebe Rude), "Redemption song" (Bob Marley) e "Guns of Brixton" (The Clash), entre muitas outras.

Os "rockcitais", encontros entre literatura e rock, vêm sendo apresentado pelos cinco escritores do Corte e três músicos da Pastel De Miolos desde o ano passado, sempre com escritores convidados. CDs da banda e livros dos autores estarão à venda no evento.

Quase-recital Corte + Pastel de Miolos
30 de maio de 2009 (sábado)
às 19h
Midialouca (R. Fonte do Boi, 81, Rio Vermelho, Salvador/BA)
Com: Pastel de Miolos + Sandro Ornellas + Katherine Funke + Gustavo Rios + Lima Trindade + Wladimir Cazé + Nelson Magalhães Filho + Diogo Costa

Tuesday, May 19, 2009

A nova geração da literatura de cordel em Salvador (BA) foi tema da reportagem "Com a corda toda", da jornalista Claudia Lessa, publicada no Caderno 2, do jornal "A Tarde" (Salvador/BA, 17 de maio de 2009). Dou opiniões em vários parágrafos do texto - por exemplo: "Hoje, um folheto de cordel pode ser considerado multimídia, igualmente ao hip hop, pois envolve texto, música e arte gráfica, além da performance teatral do cordelista-recitador" (segundo parágrafo). Para ler a reportagem, basta clicar na imagem abaixo:


pós-escrito em 21 de maio
: a notícia acima foi replicada pelo Poesia hoje - Agregador da poesia contemporânea, um blogportal excelente, que merece ser acompanhado

Tuesday, May 12, 2009

"(...) Eu vou ler um trecho do texto 'Saga e-zine', uma novela. (...)"



Texto: Patrick Brock ("Intro" da novela "Saga e-zine", do livro "Velhas fezes", Edições K, 2004)
Música: Guilherme Darisbo (guitarra), Duo HoffParu (violões)
Voz: Wladimir Cazé
Filmado na Palavraria, Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil, em 9 de maio de 2009.

Friday, May 08, 2009

próximos capítulos

(clique nas imagens para ampliar)

Feira Arteira
16 e 17 de maio de 2009 (sábado e domingo)
das 9h às 18h

Largo da Ribeira (Salvador/BA)

Com: Antonio Barreto, Jotacê Freitas, Creusa Meira, Wladimir Cazé, Pardal do Jaguaripe, Davi Nunes, Carlos Alberto Lima e Osmar Machado Júnior. Exposição de folhetos de cordel, bolsas, toalhas, bordados, cartões, acessórios de beleza, colares, brincos e outros produtos artesanais

Quase-recital Corte + Pastel de Miolos
30 de maio de 2009 (sábado)
às 18h

Midialouca (R. Fonte do Boi, 81, Rio Vermelho, Salvador/BA)
Com: Pastel de Miolos + Sandro Ornellas + Katherine Funke + Gustavo Rios + Lima Trindade + Wladimir Cazé + Nelson Magalhães Filho + Diogo Costa


Tuesday, May 05, 2009

A 2ª edição de meu primeiro trabalho publicado, o cordel "A filha do Imperador que foi morta em Petrolina", já circula desde a 9ª Bienal do Livro da Bahia, que aconteceu na segunda metade de maio. Com capa em papel marrom (em vez de amarelo), mesma ilustração (de Roney George), mesmo selo Edições K e suaves modificações do texto, o livreto está à venda exclusivamente nas duas lojas Midialouca, em Salvador (Pelourinho e Rio Vermelho) ou com o autor, via email-correios (wladimircaze@gmail.com).

"A filha do Imperador que foi morta em Petrolina" será agora lançado em Porto Alegre/RS, no evento abaixo, todos estão convidados:

LA HIJA DEL EMPERADOR ASESINADA EN PETROLINA
Dia 9 de maio, sábado, 19h
poesia + música de improvisação livre
Com Guilherme Darisbo (guitarra elétrica e leitura) + Wladimir Cazé (leitura) + Duo HoffParú (Nativo Hoffmann e Nanã Paru Quintela, violões)
Palavraria Livraria-Café, Vasco da Gama 165, Porto Alegre

Na Praia de Atalaia (Aracaju), estátua do jurista sergipano Gumercindo Bessa compulsa os crimes de José de Torquato Prado Jumento e Crispiniano Torquato Prado conforme estão descritos em "A filha do Imperador que foi morta em Petrolina"

"O ar das cidades", de Sérgio Alcides (2000)

"O ar das cidades", de Sérgio Alcides (Nankim, 2000), é um ensaio em versos sobre transitoriedade e memória - referida como "recordação" (ps. 18, 67), palavra etimologicamente derivada do radical latino "cordis", "coração", imagem poética reincidente ao longo da obra (ps. 21, 30, 58, 66). Nos 44 poemas e três seções do livro ("Suíte", "O ar das cidades" e "Apartamentos"), tempo e morte, temas fundamentais na poesia de qualquer época, são sistematicamente explorados sob diversos ângulos, no contexto do desencanto com o cotidiano que marca a cultura infoglobal. A ambiência metropolitana e o estilhaçamento composicional são o cerne tradicional modernista a partir do qual Alcides movimenta uma "maquinaria" (p. 20) de êxito incerto, mas que "não arrebenta" e é capaz de desmecanicizar a percepção: "Mal consigo ler / a cidade no meio das letras / (...) // Há muitos destroços / de palavras e luzes, (...) / cobrindo o coração. // (...) // Se houver um desabamento / o poema ficará no ar / (...) // (...) Mas os letreiros, não." (ps. 30-31). Este poema, intitulado "Um 'slide'", manifesta uma concepção do texto como veículo para novas visões ("Ponho este poema - um / slide - deitado na linha do horizonte"), atitude evidente em imagens como o "tapa-olho" (p. 20), o olho que "não era de vidro" (p. 32), os "óculos escuros" (p. 33), o "olho na câmera lenta" (p. 67) ou no poema "Televisão à janela: parapeitos" (p. 55). O gesto insurreicional contra a ordem constituída também sustenta o interesse dos textos por serem eles convites a que o leitor participe de sua elaboração, instando-o a lê-los como ocorrências de linguagem que aludem à dialética entre precariedade e integridade subjacente à relação do homem com o mundo (o próprio "Um 'slide'", o imperativo "se espete" do poema "Vodu", o poema "Jogo dos sete erros") ou que tangenciam a reflexão política ("se não invadirmos o passado / como diremos que é nosso?", p. 41). O sujeito poético circula entre as ruínas do espaço público com uma voz oblíqua, composta dos resíduos que vai encontrando em seu trajeto: o "velho cheiro" (p. 17), "a frasqueira onde viaja / o remédio" (p. 23), "o cavalo em pedaços" (p. 29), as partículas sonoras da "Valsa de uma cidade" (p. 38), o "fio caído" da fantasia genética de "Hello Dolly" (p. 60), "um fio de cabelo a mais (ou menos)" (p. 61), "um fio a menos" (p. 62). Porém há sinais de que não é possível reconstruir uma apreensão plena da realidade: "Suponho que tem um coração (e erro)" ("Um 'slide'", p. 30), "Não vejo maravilha" ("Não Vermeer", p. 54), "Não conheço restauração / nem laboratório de recomeço" ("Arruína", p. 62). A estrutura geral do trabalho é circular, cenas e episódios girando em torno uns dos outros e abrindo, por efeito cumulativo, um terreno movediço para o discurso de Sérgio Alcides se instalar. Em 2007 "O ar das cidades" teve uma segunda edição, eletrônica, gratuita, oferecida pelas Edições Quem Mandou? e acrescida de quatro poemas ("Candeias", "Cama de gato", "Sonhos" e "Graças").

pós-escrito em 18 de maio: as anotações acima foram publicadas na edição de maio de 2009 da revista virtual de cultura literatura Verbo 21.

Monday, April 27, 2009

"A filha do Imperador" em Porto Alegre (RS): 9 de maio de 2009, às 19h, na Palavraria (Bomfim)

Friday, April 24, 2009

14 recortes da 9ª Bienal do Livro da Bahia

Renata Belmonte, Lima Trindade e Gustavo Rios

João Gilberto Noll lê trecho do romance "Lorde" (2004)

Franklin Maxado cura a dengue e Jotacê Freitas se irrita com mijo na rua

Dênisson Padilha Filho no front

Antonio Barreto diz poema de Maria da Conceição Paranhos com autora ao lado

"É tudo mentira", revela Ronaldo Correia de Brito

Walter César canta a contracultura

Eliseu Moreira Paranaguá, filho de Orfeu

José Inácio Vieira de Melo possuído pelas musas

Couro, cordel e crachá: Pardal do Jaguaripe

Herculano Neto conta porque faz poema

Wladimir Cazé vê aves com Hitchcock e Setaro

Creusa Meira, Osmar Machado Júnior (Tolstoi),
WC, Carlos Alberto Lima e Davi Nunes...


... jovem geração do cordel baiano do século XXI

fotos: WC e Bárbara Maia

pós-escrito em 25 de abril: mais fotos da Praça de Cordel e Poesia podem ser vistas num sítio criado pelo neocordelista Carlos Alberto Lima, autor de "O fatídico dia em que ACM encontrou os desaparecidos" (2007) e outros quatro títulos. depois comentarei os folhetos da jovem geração do cordel baiano do século XXI que tenho lido nos últimos dias.


Monday, April 20, 2009

A 9ª Bienal do Livro da Bahia já está em seu quarto dia (vai até 26 de abril, no Centro de Convenções). Estou lá diariamente, das 18h às 22h, na Praça do Cordel e Poesia, acampado junto com outros poetas de bancada (como Franklin Maxado, Antonio Barreto e Jotacê Freitas), vendendo meus 2 folhetos de cordel, "ABC do Carnaval" (2009) e "A filha do Imperador que foi morta em Petrolina" (2004).

A programação da Bienal está muito mais variada e atraente do que na edição anterior. A seleção dos poetas e cordelistas que participam de recitais (em três sessões diárias, às 18h, 19h10 e 20h20), organizada por José Inácio Vieira de Melo, tem sido um painel significativo da produção poética baiana atual, com representantes dos mais diversos estilos, dicções, tradições, linguagens (e níveis de qualidade também). Do que até agora assisti, o que mais apreciei foi a segurança com que Fabrícia Miranda apresentou seu trabalho, atendo-se à palavra e ao texto e evitando o que poderia facilmente descambar para arroubos emotivos.

Na quarta-feira, 22 de abril, às 20h20, participo de um bate-papo e recital de poesia, na Praça de Cordel e Poesia, acompanhado dos poetas baianos Damário Dacruz e Lita Passos. Pretendo ler trechos dos dois folhetos de cordel citados acima e do meu livro de poemas "Microafetos" (2004, esgotado), além do poema "Os pássaros" (que pertence a meu próximo livro de poesia) e textos de poetas que me influenciaram (João Cabral, Manoel de Barros, Murilo).

Apareçam, leitores-fantasmas deste blog relapso!

pós-escrito em 21 de abril: quero destacar também a poesia de Emmanuel Mirdad (que leu uma amostra de seu trabalho ontem, 20/04, por volta das 18h, na Praça do Cordel e da Poesia): literatura reflexiva, sóbria, impertinente. Mirdad publicou em seu blog todo o seu primeiro livro, "Deserto poema" (que pretende brevemente lançar em papel)
o cordel-manifesto "Arte rebatida", do baiano Pardal do Jaguaripe (sem data, sem editora), recorre a várias modalidades de estrofização (sextilhas, tercetos, décimas, quadras) e de uma discreta espacialização do verso para combater a mediocridade e o conservadorismo na criação literária (inclusive na poesia de cordel, em que ambas as atitudes são problemas graves e paralisantes). "Arte rebatida" é um poema simples e relevante, que aventa a possibilidade de um cordel "experimental". um exemplo da desenvoltura do autor: "Fique sabendo que existem cabalas / Acobertadas nos nobres conclaves. / Aristocratas sedentos por salas // São responsáveis por grandes entraves / Ante os novatos no campo das artes" (p. 5)

pós-escrito em 21 de abril: Pardal do Jaguaripe declamando integralmente seu cordel-manifesto "Arte rebatida" (ontem, 20/04, por volta das 19h30, na Praça do Cordel e da Poesia) foi um dos grandes momentos que presenciei nesta 9ª Bienal do Livro. contatos de Pardal: adsanjr@bol.com.br/adsanjr@ig.com.br/tel.: (71) 9145-6942

Wednesday, April 15, 2009

"Em "3 vestidos e meu corpo nu" (P55 Edições, 2009, 50 páginas), primeiro livro de contos de Marcus Vinícius Rodrigues, há uma forte identificação do narrador com a figura feminina, que é o ponto de partida para a articulação do texto. O tecido do vestido de festa que a personagem de "A mais bela flor da alma" usa em um momento significativo de sua vida é feito do mesmo tecido de que são feitas as palavras com que a menina tenta apreender o seu mundo subitamente transtornado. (...)

Assim começa "O vestido de dançar", resenha que publiquei na nova edição da revista virtual de cultura literatura Verbo 21. Para ler o texto na íntegra, acesse a página da revista, com a qual passo a colaborar mensalmente.

Tuesday, April 14, 2009

passeio Calçada-Plataforma-Ribeira

há dois domingos, juntei-me a um grupo de 50 pessoas, fotógrafos profissionais e amadores, para um passeio no trem suburbano de Salvador. a meio do caminho, um descuido me fez apagar todas as fotos que tinha feito com minha sony digital... mesmo desanimado pelo vacilo, fiz mais algumas fotos despretensiosas, que publico aqui para contrabalançar o excesso autopromocional deste blog nas últimas semanas [outras fotos, excelentes, feitas pelos demais participantes do passeio, podem ser vistas no blog que capitaneou o quase-flash mob, o bravo Licuri]. em breve, retornaremos às micro-resenhas de livros.

Casarão na Ribeira

Ribeira

Ribeira

Antigo Hidroporto de Salvador, de 1932
(Enseada dos Tainheiros, Ribeira)


Sem cabeça

Com a mão no bolso

Água da Baía de Todos os Santos

Abelha na cerveja

Bandeira da Bahia

Fotos: Wladimir Cazé

Tuesday, April 07, 2009

"Novos artistas da palavra", matéria da repórter Claudia Lessa no "A Tarde" de domingo passado (5/04/2009), radiografa a situação lastimável do mercado editorial na Bahia dos dias de hoje e elenca alguns dos escritores que despontam no cenário, contra todos os obstáculos de praxe (escassez de editoras atuantes, quase inexistência de leitores, o gargalo da distribuição): João Filho, Adelice Souza, Renata Belmonte, Lima Trindade, Marcus Vinícius Rodrigues e outros. compareço no quarto parágrafo, comentando a experiência positiva das Edições K. para ler a reportagem, basta clicar na imagem abaixo:

Friday, April 03, 2009


CORTE PARTICIPA DA BIENAL DO LIVRO DA BAHIA
EM BATE-PAPOS E RECITAIS DE PROSA E POESIA

Os escritores do grupo Corte vão participar da 9ª Bienal do Livro da Bahia, levando uma amostra da modernidade urbana da literatura baiana contemporânea a dois bate-papos e recitais de prosa e poesia que integram a programação do evento, a ser realizado no Centro de Convenções da Bahia (Boca do Rio), de 17 a 26 de abril de 2009.

No sábado, 18 de abril, às 19h, Gustavo Rios e Lima Trindade (contistas), membros do Corte, participam da mesa-redonda "Literatura, blogs e bloguerias", no espaço Arena Jovem, juntamente com a escritora baiana Renata Belmonte.

Na quarta-feira, 22 de abril, às 20h20, Wladimir Cazé, também do Corte, participa de um bate-papo e recital de poesia, no espaço Praça de Cordel e Poesia, acompanhado dos poetas baianos Damário Dacruz e Lita Passos.

Corte – O grupo literário Corte é formado pelos escritores Gustavo Rios, Katherine Funke, Lima Trindade, Wladimir Cazé e Sandro Ornellas, todos residentes em Salvador (BA) e na faixa dos 25-40 anos de idade. O Corte vem organizando recitais de literatura e música, na intenção de promover e discutir os novos rumos da literatura na Bahia.

O Corte produz poesia e prosa sob influência de música popular, quadrinhos, cinema e clássicos da literatura mundial. O grupo já realizou ou participou de eventos promocionais de suas obras em Petrolina/PE (janeiro/2008), Salvador/BA (março, setembro e novembro/2008), Feira de Santana/BA (março/2008), Porto Alegre/RS (março/2008) e San Miguel de Tucumán (Argentina, maio/2008).

Monday, March 30, 2009

" (...) uma cultura híbrida é, por definição, incontrastável quer com uma cultura vernacular, quer com uma global, posto que não é síntese ou mero compósito de outras construções simbólicas. Ela é resultado, ao contrário, de uma aproximação entre diferentes que não se completa nunca, abrindo, na expressão de Homi. K. Bhabha, um 'terceiro espaço' de negociação entre diferenças incomensuráveis, ou, como elabora Silviango Santiago, criando um 'entrelugar'. (...) Entre a submissão completa a uma cultura homogeneizante e a afirmação intransigente de uma tradição imóvel, instaura-se, portanto, um intervalo de recriação e reinscrição identitária do local que é irredutível a um ou a outro desses pólos extremados." (Moacir dos Anjos, em "Local/global: arte em trânsito", p. 29-30)



"Local/global: arte em trânsito", de Moacir dos Anjos (Jorge Zahar, 2005), pretende introduzir o leitor no debate em torno das transculturações intensivas verificadas entre povos e países na sociedade infocapitalista mundial. O autor faz um rápido inventário dos principais conceitos que tentam esclarecer o fenômeno da resistência de culturas locais em contexto global, tais como "multiculturalismo", "aculturação", "mestiçagem", "tradução", "sincretismo", "antropofagia", "crioulização" e "hibridismo" (demonstrando especial predileção pelo último), e expõe diversas maneiras de como, desde a década de 90, a curadoria em artes visuais e a própria investigação estética vêm refletindo a proliferação de identidades elásticas, modulares, "em trânsito constante" (p. 69).

Friday, March 27, 2009



Foi divulgada a programação da 9ª Bienal do Livro da Bahia, que acontece de 17 a 26 de abril, no Centro de Convenções da Bahia (Salvador), com a presença de convidados de peso: Moacyr Scliar, Alberto Mussa, João Gilberto Noll, Luiz Ruffato, Marcelino Freire, Marcio Souza, Ronaldo Correia de Brito, Mary del Priore, Antônio Carlos Viana, Ruy Castro, Franklin Maxado e Antônio Torres, entre outros.

Vou participar de uma mesa sobre poesia (bate-papo e recital), com dois outros autores locais de renome. Mais informações em breve.

O que: Bate-papo e recital
Onde: Praça de Cordel e Poesia da 9ª Bienal do Livro da Bahia
Quando: 22/04/2009 às 20h20
Com: Damário Dacruz, Lita Passos e Wladimir Cazé

Saturday, March 21, 2009



saiu uma entrevista comigo na revista virtual de cultura literatura Verbo 21, editada há mais de 10 anos pelo ficcionista brasiliense-baiano Lima Trindade (que também elaborou as perguntas, sobre poesia, autores que me influenciam e outros assuntos).

Friday, March 13, 2009

"(...) o poeta pode aprender com a TV e o cinema algumas técnicas de visualização para aumentar o seu poder de contar histórias, o seu poder de, usando apenas instruções verbais, fazer com que os leitores ou os ouvintes possam recriar com riqueza de detalhes a história por ele inventada." (Braulio Tavares, "Contando histórias em versos: poesia e romanceiro popular no Brasil", p. 140-141)



"galeria de versos brasileiros", conforme o próprio autor definiu numa dedicatória manuscrita em dezembro de 2005, "Contando histórias em versos: poesia e romanceiro popular no Brasil", de Braulio Tavares (Ed. 34) expõe com brevidade e didatismo os fundamentos do ofício poético, para em seguida se deter sobre a tradição do poema narrativo na língua portuguesa (especialmente na literatura de cordel nordestina), percurso expositivo em que lança mão de uma quase-miniantologia da presença reprocessada de fórmulas de origem medieval na poesia brasileira do século XX, transcritos versos dos modernistas Mario de Andrade, Drummond, Cecília e Cabral

Tuesday, March 03, 2009

Literatura de verão

Vídeo da TVE-Bahia sobre o lançamento do folheto de cordel "ABC do Carnaval", no dia 10 de janeiro de 2009, na loja Midialouca (Rio Vermelho).

Reportagem: Igor Baraúna
Imagens: Rubem Araújo
Edição: Diogo Oliveira / Maruzia Dultra
Com: Wladimir Cazé, Antonio Barreto, João Carlos Sampaio
Duração: 4'01''



ABC DO CARNAVAL
Autor: Wladimir Cazé
Edições K
14 páginas
R$ 3,00
À venda na loja Midialouca (Rua da Fonte do Boi, 81, Rio Vermelho, tel.: 71-3334-2077) ou com o autor, pelo telefone 71-8890-6545 e pelo blog
www.silvahorrida.blogspot.com

Friday, February 27, 2009

Miniturnê "ABC do Carnaval" (fotos e agradecimentos)

Aurélio Schommer, Patrick Brock, Antonio Barreto,
WC, Creusa Meira e Elizeu Paranaguá
(Salvador/BA, 10/01/2009, Midialouca, Rio Vermelho)


Pedro Monteiro, João Gomes de Sá, Sr. Cortez,
Costa Senna (sentado), Varneci Nascimento,
WC e Marco Haurélio
(São Paulo/SP, 7/02/2009, Livraria Cortez, Perdizes)

Petrolina/PE, 14/02/2009, Café com Arte, Petrolina Antiga

Miniturnê "ABC do Carnaval" agradece a George Sami, Paulo (Midialouca), Marcos Casé, Joceval Santana, Ana Paula Boni, Marco Haurélio, Lupeu Lacerda, Ludmila (Pagu), Raimundo Rocha, Cecilia Giannetti, Ednilson Xavier, Kátia Borges, Cássia Candra, Carla Bittencourt, Maruzia Dultra, Sergim de Sá e a todo mundo que foi ao lançamento e/ou comprou o livrinho. Agradecimentos especiais, com amor, à minha Bárbara

Monday, February 16, 2009

O Carnaval na literatura de cordel baiana

ABC

Os "ABCs" são uma modalidade da literatura de cordel muito antiga, dedicada a homenagear heróis e localidades, personagens e acontecimentos. "A função primitiva dos ABC devia ser mnemônica", informa Câmara Cascudo em "Vaqueiros e cantadores" (p. 70). A disposição das estrofes, cada uma iniciada por uma letra diferente, em sequência de dicionário, facilitaria a memorização dos versos.

CARNAVAL

O Carnaval é um tema de vasto cultivo na literatura de cordel do Nordeste brasileiro. Dois folhetos antigos, do tempo em que o Carnaval tinha "três dias": "O Carnaval da Bandalheira", do poeta-repórter José Gomes, Ele o Tal Cuíca de Santo Amaro (1907-1964), e "Um exemplo que se deu no Carnaval deste ano" (1954), de Manoel Camilo dos Santos. São folhetos que podem ser classificados como de crítica de costumes ou sátira:

"E assim é o Carnaval
Três dias de bandalheira
Três dias de orgia
Três dias de mulequeira
Três dias de pandemonio
Três dias de bebedeira
"
(Cuíca de Santo Amaro, "O Carnaval da Bandalheira")

Um exemplo contemporâneo desse gênero de literatura de cordel que tem o Carnaval como tema central são as coberturas jornalísticas em forma de cordel do repórter-poeta Zezão Castro, registros em verso rimado dos Carnavais de 2004 e 2008 (salvo erro na datação), publicados em páginas especiais do jornal "A Tarde". Os dois cordéis-reportagem talvez sejam os únicos, nos tempos atuais, impressos no calor da hora em um veículo diário de grande circulação.

ABC DO CARNAVAL 1

"ABC do Carnaval", do alagoano radicado na Bahia Rodolfo Coelho Cavalcanti (1919-1986) é outro folheto que pode ser incluído na categoria de crítica ou sátira. O poeta usa a palavra para moralizar a sociedade, numa "luta contra a dissolução dos costumes e a desagregação moral" (na definição de Orígenes Lessa em nota introdutória à antologia "O cordel e os desmantelos do mundo", 1983, p. 13):

"Rua abaixo, rua acima
Vão 'marchando' os cordões
São 'blocos' e 'batucadas'
São grupos de fuliões!
Quantas almas decaidas?
Quantas mulheres perdidas
Neste mar das iluzões?
"
(Rodolfo Coelho Cavalcanti, "ABC do Carnaval")

Publicado após o mesmo Carnaval em que a Fobica de Dodô e Osmar desfilou pela primeira vez (1950) e abriu alas para a capitalização da festa, o cordel de Rodolfo ironiza o Carnaval dos bailes nos clubes. Não chega a mencionar as recentíssimas invenções da guitarra baiana ou do trio elétrico, que a partir daí renovaram o Carnaval de rua.

ABC DO CARNAVAL 2

É nessa tradição que se insere meu "ABC do Carnaval" (Edições K, 2009). Porém estamos em outros tempos, os costumes mudaram muito, o Carnaval se industrializou e agora tem "sete dias", conforme hiperboliza meu folheto. O Carnaval se tornou um dos símbolos da identidade coletiva do povo de Salvador. Mesmo com a mediocridade musical reinante, existe música de qualidade no trios elétricos. Mesmo com o agravamento do problema da privatização do espaço público durante os desfiles, o Carnaval é a hora em que o povo sai às ruas e reocupa seu território, com a graça da arte ou com a dor da violência. Meu "ABC do Carnaval" enaltece uma cidade que por alguns dias se transforma em uma festa.

ABC DO CARNAVAL
Autor: Wladimir Cazé
Edições K
14 páginas
R$ 3,00
À venda na loja Midialouca (Rua da Fonte do Boi, 81, Rio Vermelho, tel.: 71-3334-2077) ou com o autor, pelo telefone 71-8890-6545 e pelo blog www.silvahorrida.blogspot.com

Friday, January 16, 2009

próximos passos

(clique nas imagens para ampliar)


São Paulo/SP, 7 de fevereiro
:




Petrolina/PE, 14 de fevereiro:


Wednesday, January 14, 2009

Corte na TV

O programa "Soterópolis" (TVE Bahia) que vai ao ar às 22h desta quinta-feira (15/01) apresenta uma matéria sobre grupo literário Corte, formado por Katherine Funke, Wladimir Cazé, Lima Trindade, Sandro Ornellas e Gustavo Rios. O "Soterópolis" é uma produção da TVE Bahia exibida todas as quintas (às 22h), com reprise às sextas (às 19h) e aos domingos (às 18h). A programação da TVE Bahia também pode ser vista através do site www.tve.ba.gov.br.

Saturday, January 10, 2009

"Tributo ao Carnaval baiano em forma de cordel" é o título da matéria de Joceval Santana publicada no jornal A Tarde (Salvador/BA) de hoje (10/01/2009). ficou bem bacana, com foto e tudo. estou indo pro lançamento agora, seja o que Momo quiser.

Thursday, January 08, 2009

PRIMEIRO LANÇAMENTO LITERÁRIO DE 2009



"ABC do Carnaval",
cordel de Wladimir Cazé

10 de janeiro (sábado)
às 18h

Na Midialouca
(R. Fonte do Boi, 81, Rio Vermelho, Salvador/BA)

BREVE:
lançamento em São Paulo/SP (7 de fevereiro)
e Petrolina/PE (14 de fevereiro)

Tuesday, January 06, 2009

O Portal Literal publicou um trecho do "ABC do Carnaval" em nota sobre o lançamento do próximo dia 10 de janeiro. Confira quatro estrofes do meu novo folheto de cordel. E apareça na Midialouca no sábado. Mais informações sobre o folheto no post abaixo.

Thursday, January 01, 2009

Lançamento de meu novo folheto de cordel, "ABC do Carnaval" - 10 de janeiro de 2009


CARNAVAL DE SALVADOR
VIRA FOLHETO DE CORDEL

O folheto de cordel "ABC do Carnaval", do poeta Wladimir Cazé, será lançado no sábado, 10 de janeiro, às 18h, na loja de entretenimento cultural Midialouca (Rua da Fonte do Boi, 81, Rio Vermelho).

"ABC do Carnaval" é uma homenagem poética à música baiana. O folheto aborda, com humor, personagens e lugares de Salvador que marcaram a história do Carnaval como ele é hoje conhecido. Outros aspectos da festa também são tratados no cordel: os foliões "pipoca", a violência, a origem do trio elétrico e dos blocos afro, entre outros.

"ABC do Carnaval" será vendido por R$ 2,00 no evento de lançamento. Em seguida, o folheto passará a custar R$ 3,00 em alguns pontos de venda da capital.

O folheto é uma publicação da editora independente Edições K, que atuou a nível nacional entre 2004 e 2005, publicando obras de autores de vários estados, como Mayrant Gallo (BA), Marcelo Benvenutti (RS) e Estevão Azevedo (SP).


SERVIÇO

O que:
Lançamento do cordel "ABC do Carnaval"
Autor: Wladimir Cazé
Quando: 10 de janeiro (sábado), às 18h
Local: Midialouca (Rua da Fonte do Boi, 81 - Rio Vermelho, tel.: 3334-2077)
Entrada franca

Monday, December 22, 2008

Retrospectiva 2008 - Corte e WC

Pastel de Miolos e WC,
ICBA, Salvador/BA, 22/11/2008

WC e Paulo Scott,
ICBA, Salvador/BA, 30/08/2008


Katherine Funke, WC e Sandro Ornellas,
Teatro Orestes Caviglia,
San Miguel de Tucumán (Argentina),
30/05/2008


Escola de Belas Artes, Salvador/BA, 10/05/2008

Roberval Pereyr, WC, Mayrant Gallo,
José Inácio Vieira de Melo, Lupeu Lacerda,
UEFS, Feira de Santana/BA, 19/03/2008


Gustavo Rios, WC e Katherine Funke, ICBA,
Salvador/BA, 15/03/2008



o enredo do romance-tese sobre o caráter mestiço da sociedade soteropolitana "Tenda dos milagres" (1967), de Jorge Amado, transcorre em dois planos temporais: 1) as primeiras décadas do século XX, que acompanham a formação do herói Pedro Archanjo, etnólogo autodidata e líder da religião afro-brasileira, circulando em torno de um casarão habitado por tipos populares (a Tenda dos Milagres) e situado no "território livre" (p.14) do Pelourinho, onde "tudo pode acontecer e acontece" (p. 80) e que "se transformara no coração, no centro vital de toda aquela parte da cidade, onde se processa, potente e intensa, a vida popular" (p. 90); e 2) os anos 1968 e 1969, quando a obra de Archanjo, praticamente esquecida, é afinal descoberta, reapropriada e deturpada, nas comemorações do centenário do autor patrocinadas pelas forças políticas da "nova Bahia" (p. 105)

Wednesday, November 19, 2008

Lupeu Lacerda alterna 47 micropoemas de versos curtos e 36 prosoemas no livro de estréia "Entre o alho e o sal" (Kabalah Editorial, 2007), anotações líricas de linguagem pop ("sol sonrisal derretendo o rio", as figuras de donald e tarzan, o refrão de "estoura o piano", ps. 126-70), nas quais cartas de baralho e peças de xadrez ("reis", "peões", "rainha" "torre", "cavalos", "valete de espadas") contracenam em uma cidade arquetípica, indefinida no tempo-espaço ("a cidade é sempre outra / na mesma", p. 119; "a cidade de concreto / desmorona/ como um castelo de cartas", p. 31), onde circulam "vampiros" que têm "uma floresta inteira escondida / debaixo do sapato, / do asfalto, do pé" (p. 82) e onde a percepção se adapta ao horizonte turbo-urbano ("microtela da memória", p. 8; "as caras slow motion do metrô", p. 14)

Friday, October 10, 2008

22 de novembro:


Thursday, October 02, 2008

Montei (no Ex Index, meu novo blog) uma pequena seleção da minha produção literária dispersa por vários endereços da internet, com poemas do meu livro "Microafetos" (2005), outros poemas de um possível próximo livro, fragmentos de uma prosa "in progress" (que venho lapidando há muito tempo) e mais alguma coisa. O novo blog ainda está em construção e, enquanto isso, Silva horrida - Guia de cidades, continua operante, prestes a completar quatro anos no ar. Boa leitura!

Monday, September 29, 2008

o poema "Drão de Roma - dezembro caiu" (2007), de Diógenes Moura (publicado em livro com fotografias do autor), dá forma a uma experiência, fortuita e ao mesmo tempo incisiva, de separatismo social no centro histório de salvador, o furto, por um grupo de pivetes, de uma câmera contendo fotos da festa de santa bárbara como ponto de partida para correspondências barroco-pop entre estímulos históricos, místicos, eróticos e eruditos, sinestesia e sincretismo na face de uma cidade dividida em classes que se vitimizam mutuamente através da violência e da desmemória coletiva: "Na terra junto ao mar ninguém vê nada" (trechos XVII e XXXI)

Friday, September 26, 2008

Heitor Dantas é o músico por trás do projeto Associação Mr. Harry Haller e o Samba do Patinho Feio, que lançou em 2007 o disco "Estudos azedos - dez estudos para paladares apurados", totalmente gravado em casa, sem instrumentos musicais convencionais, utilizando apenas samples de sons domésticos reprocessados digitalmente (barbeador elétrico, copos, panelas, etc.). O som é experimental, entre a música eletrônica ambiente e a música erudita. O disco pode ser baixado na íntegra, gratuitamente, no endereço http://www.associacion.blogger.com.br.




Wednesday, September 24, 2008

"Os aposentos em que os escritores (essa subespécie de leitores) se cercam dos materiais de que precisam para seu trabalho adquirem alguma coisa de animal, à maneira de uma toca ou ninho, tomando as formas de seu corpo e oferecendo um receptáculo para seus pensamentos. Ali, o escritor pode fazer a cama entre os livros, ser um leitor monógamo ou polígamo a seu bel-prazer, selecionar um clássico consagrado ou um novato desconhecido, deixar argumentos pela metade, começar por qualquer página aberta ao acaso, passar a noite lendo em voz alta para ouvir o eco da própria voz 'sob o silêncio amigável da lua tácita', nas famosas palavras de Virgílio." (p. 150)

"Um estúdio confere a seu proprietário, a seu leitor privilegiado, aquilo que Sêneca chamava euthymia, um termo grego que, explicava o filósofo, significa o 'bem-estar da alma' e que ele traduzia como 'tranquilitas'. Todo estúdio aspira, afinal, à euthymia. Euthymia, memória sem distração, intimidade da leitura, período secreto do dia comunal - é isso o que procuramos num espaço privado para a leitura." (p. 158-9)

Alberto Manguel, em "A biblioteca à noite" (ensaios)



Thursday, September 11, 2008

Manuel Orlando é outra pessoa no mesmo corpo, passados os anos. O percussionista parece com o cara que ele era tempos atrás, no porte franzino, na pela preta fosca, mas muita coisa mudou nele com a experiência da vida e a prática da arte. Foi freqüentando as sessões musicais do fim da tarde de sábado no museu do Solar do Unhão que ele tomou gosto por bater nas caixas e nos pratos com uma baqueta e com a mão dar pancadas nos tambores, primeiramente como apenas um rapaz na platéia, depois como aprendiz na escola do Pelourinho, onde se destacou pela precisão de seu toque e pela rapidez de suas viradas, sendo então merecedor de uma bolsa de estudos no Canadá. Nunca tinha pensado em morar em outro país, e aproveitou a oportunidade sem pestanejar, apesar do receio do insucesso e do aperto que sabia estar à sua espera em um lugar de temperaturas tão baixas. Por quatro semestres, o conservatório o colocou em contato com ricos conhecimentos e técnicas, enquanto a cidade cartesiana e acolhedora lhe convocava os sentidos a um salto além das convenções da distante terra natal, com amigos loucos e mulheres imprevisíveis em bares em chamas e ruas geladas do hemisfério norte. Se ele gostou da experiência e conseguiu até ganhar algum dinheiro tocando em grupos de jazz e mambo; se ele poderia te desenvolvido uma carreira sólida, por que decidiu voltar ao Brasil ao fim de dois anos? Manuel Orlando sentiu que precisava se ver em seu cenário de origem, convertido em outro ser pela carga acumulada no estrangeiro; sentiu a necessidade de recolocar quem ele agora era no lugar de onde viera, para desse confronto extrair sua verdadeira identidade. E assim, com um chapéu de veludo azul e a barba por fazer, desembarcou no Aeroporto Luís Eduardo Magalhães para recomeçar a vida.

Tuesday, August 12, 2008

(clique na imagem para ampliar)

Friday, August 08, 2008

1.8.2008.

As pessoas falam duoletos, consensos temporários, criados, sobre a base comum da língua inglesa com estilhaços de espanhol e centenas de outros idiomas. Estive em lugares coalhados de placas frontais de estabelecimentos italianos, tailandeses, chineses. No metrô vi gente lendo periódicos indianos, eslavos, latinos, árabes, japoneses. Se eu morasse aqui meu idioleto seria o portospanglish.

2.8.2008.
Para que pudesse existir um mínimo de compreensão nesse labirinto babélico, os quarteirões foram matematicamente alinhados em um sistema urbano abstrato, segundo a simbologia universal dos números. "Essa simplificação radical do conceito é a fórmula secreta que permite seu crescimento infinito sem uma perda correspondente de legibilidade, intimidade ou coesão." (Rem Koolhas, "Nova York delirante", p. 136)

O palco pardo padronizado se descortina diante de mim. A mala de couro de carneiro clonado pousada no canto da sala, torre de roupa amontoada. A cidade-hiperespaço esculpida em compartimentos descontínuos é o mesmo cenário, projetado para a proliferação controlada de seu conteúdo. Cidade com instruções de uso, fáceis de assimilar. A queda d'água pesada de toda semana se despeja sobre a cobertura metálica do prédio. É verão na meca do capitalismo. A fuligem no ar quente e seco se olidifica no suor do corpo. Um atordoamento atávico me ata a meus sete sentidos.

3.8.2008.
Os bairros são organizados para terem vidas paralelas e não dependerem uns dos outros. As vizinhanças são rapidamente rapinadas por aglomerados humanos alienígenas que se acercam dos centros de comércio periféricos, caem no circuito econômico local, prosperam em seus negócios e depois vão embora.

4.8.2008.

"The single most important document in New York City's development is a map printed in 1811 called the Randel Survey of The Commissioneers' Plan. It unveiled a plain to increase the size of the city by 11.400 acres and 'provide space for a greater population than is collected on this side of China.' (...) In 1811, New York was still a 'small but promissing capital which', as characterized by Henry James in Washington Square, 'clustered about the Battery and overlooked the Bay, and of which the uppermost boundary was indicated by the grassy waysides of Canal Street.' North of Canal loomed a rugged wilderness broken only by an occasional farm or small community, such as the village of Greenwich (now Greenwich Village). (...) In May or June 1808, Randel started the project which would occupy him off and on for thirteen years. (...) Randal brought the topographical maps he was drafting of various sections of the island to his regular meetings with the commissioneers. The question of an street plan occupied much of their attention at these meetings: 'whether they should confine themselves to rectilinear and rectangular streets, or whether they should adopt some of these supposed improvements, by circles, ovals, and stars.' The gridiron was then the most popular street pattern and had already been employed in such cities as Philadelphia, Savannah, Charleston, and New Orleans. 'This is a plan oh which Americans are very fond, observed a visitor from Europe. 'All the modern built towns are on this principle.' It certainly had the advantage of being simple to lay out and easy for building construction. When the commissioneers decided on the gridiron for Manhattan, they 'could not bear in mind that a city is to be composed principally of the habitations of men, and that strait sided and right angles houses are the most cheap to build, and the most convenient to live in'. Their plan consisted of a dozen north-south avenues each 100 feet wide, and at intervals of 200 feet were 155 numbered streets 60 feet wide. (...) The natural geography of the island was originally a factor in devising a street system, but there is little evidence in the eight miles of numbered paralell and perpendicular streets and avenues delineated on Randel's map that the topography of the island was even a consideration. (...) In the early nineteenth century, Manhattan was still an island of hills (...) Once the map and plan were approved, the Common Council required elevations taken from each street, and at each intersection a marker placed where the future streets would be constructed. Between 1811 and 1821, Randel and his determined crew placed a three-foot nine-inch-long white marble marker engraved with the street's number at each intersection. Where rocks blocked the way, half-foot iron bolts were affixed to them. In total, 1549 markers and 98 bolts eventually dotted the landscape of the island. (...) The plan for Manhattan that Randel and the commissioneers devised is still virtually intact. A few significant changes have been made to it over the years - Broadway, for example, which was not included in the Commissioneers' Plan, could not be eliminated, and Central Park was added in the 1850s - but the monotonous straight street of New York City are the legacy of the Randel Survey'. (Paul E. Cohen and Robert T. Augustyn, "Manhattan in maps: 1527-1995", Rizzoli, 1997, ps. 102-105)."[In] 1851 (...), New Yorkers decided they needed a large park. (...) In January 1852 (...) the Special Commitee On Parks recommended the creation of a much larger park between Fifth and Eight Avenues, from Fifty-ninth to 106th street: 'Central Park will include grounds almost entirely useless for building purposes, owing to the very uneven and rocky surface.' " (p.126)

5.8.2008.

O Central Park é uma ilha de verde no coração do mar de cimento. "Manahatta" is the Indian (Manate) word for "island of the hills" and is variously translated as "hilly island" or "the small island'. "Trickling through the hills were trout streams and fishing holes. Certain New York City street names recall the time when Manhattan was abundant with water ways. (...) Canal Street was a swampy place that at very high tides separated Manhattan into two islands." (Paul E. Cohen e Robert T. Augustyn, "Manhattan in maps", p. 139). "Central Park had been completed in 1876", "The uniting of Brooklyn and Manhattan, preceded by the annexation of parts of the Bronx in 1874, marked the first steps in creating Greater New York City" (p. 142). "On January 1, 1898, Greater New York City had been created by consolidating the largest and third-largest cities in America. (...) The less-developed boroughs of Queens, Staten Island, and the remaining sections of the Bronx also became part of Greater New York." (p. 144) "Subway service began on October 27, 1904 (...) By 1905, construction reached the Bronx (...) and in 1908 three boroughs, including Brooklyn, were connected." (p. 148-149)

"The historical atlas of New York City", by Eric Homberger: "In the 1790s the City Surveyor, Casimir Goerck had laid out larger parcels of civic land on regular grid pattern. When the city requested the state legislature to appoint commissioneers to lay out a plan for the development of the whole island in 1806, it was probably clear that a plan akin to Goerck's grid design would be followed. The commission took four years to complete the plan: a simple rectilinear grid was to be extended over all existing rights of way, agriculture holdings, hills, waterways, marshes, and houses. Broadway survived the plan, but little else was allowed to remain. It was an extension of a city which had grown largely without either plan or central direction. (...) The rationale was economic: regular-shaped plots, right-angled intersections, valuable corner lots and straight streets would encourage the city's economic development" (p. 68)

7.8.2008.
Zona franca. Piet Mondrian's "Broadway Boogie Woogie" (1942-43), no Moma: "Bands of stuttering chromatic pulses, paths of red, yellow, and blue interrupted by light gray suggest the city's grid and the movement of traffic, while the stacatto vibration of colours evokes the synchopation of jazz and the blinking electric lights of Broadway."

Saturday, August 02, 2008


meu folheto de cordel "A filha do Imperador que foi morta em Petrolina" (o de capa amarela, no lado direito da foto acima) participou da mostra sobre literatura de cordel do Poesiefestival Berlin, no foyer da Akademie der Kunste, na capital alemã, de 5 a 13 de julho de 2008. curadoria: Timo Berger e Anke Hoffman. foto: Timo Berger

Thursday, July 31, 2008

21.07.2008
(...) cidade (...) que funciona como uma engrenagem de povos e dinheiro. Williamsburg é o pedaço boêmio em voga nestes tempos, "Endtroducing" e Coronas Extra no bar café Juliette. Na Times Square me sinto esmagado pela grandiosidade de tudo. Não é bem uma praça, mas um grande cruzamento de avenidas e letreiros luminosos com anúncios e notícias atravessando uns aos outros. Painel de Roy Lichenstein (1996) no hall de um arranha-céu a caminho do East Side. Alice-estátua no Central Park, sentada no enorme cogumelo de bronze, o Coelho e o Chapeleiro a seu lado, crianças montando a escultura de metal. (...) do alto do teleférico (aerial tramway) sobre o Canal Oeste, a caminho da ilha Roosevelt. A sensação de mobilidade que a cidade proporciona se intensificou em mim, com a rápida subida ao ponto de vista elevado na escuridão recortada pelas luzes dos prédios. (...)

24.07.2008
(...) a obrigatória Liberdade estática sob o céu fechado. Decidi subir a Broadway desde a Wall Street; a caminhada foi até Union Square. Na Division of United States History, Local History and Genealogy da New York Public Library, leio sobre o breve período em que Nova York foi a capital dos Estados Unidos (de 4 de março de 1789 a 30 de agosto de 1790). A informação está no livro ilustrado "Manhattan maps: 1527-1995", de Paul E. Cohen e Robert T. Augustyn (editora Rizzoli, 1997). A Broadway costumava se chamar Great George Street a partir da Ann Street, mas essa denominação duraria somente até 1794. A baixa Broadway era uma trilha nativa dos índios Lenape que seguia a linha de maior altitude, evitando pântanos e afloramentos de rocha. A segunda informação está no livro "The historical atlas of New York City", de Eric Homberger (Henry Holt Company, 1994). A construção de uma ponte sobre o Collect Pond, em 1780, à altura da atual Canal Street, permitiu que a Broadway continuasse a crescer para o norte. Seu nome holandês, por volta de 1640, era Heerewegh (long highway).

25.07.2008
Hoje à tarde percorri partes do East Village até Chelsea. É uma região de Manhattan com muitos prédios baixos, de até quatro andares, fachadas de tijolos amarronzados, que evocam outras épocas com a presença reduzida de edifícios pós-modernos. Tento tirar o melhor proveito de meu tempo em superfície, já que a dependência do metrô para deslocamentos rápidos me obriga a estar por longos minutos debaixo da terra. Vou pelas ruas e avenidas catando jornais gratuitos nas caixas de plástico coloridas, estrategicamente amontoadas nas esquinas mais movimentadas. Persigo minha própria forma de me introduzir no formigueiro humano, uma sociedade que parece obcecada pela autocontemplação (...)

26.07.2008
Vista a partir do Brooklyn, a parte sul da ilha de Manhattan é a fortaleza envidraçada de um império multi-étnico, à noite um presépio de estrelas, de dia joalheria em ação. As ruas subterrâneas do metrô são prolongamentos das ruas ao ar livre. A magnitude das construções principais me intimida e deteriora minha noção de espaço-tempo. (...) Um diário de viagem a Nova York deve começar pela perplexidade da viagem a uma cidade-estado sagrada. A lógica que confere mágica à personalidade de Nova York é a arte de permanecer sempre a mesma e de estar sempre diferente. (...) Sugadouro de dólares. Apátrida nação. Paraíso da junk food.

27.07.2008
Ocean Beach, na Fire Island, Suffolk, NY. Ondas de vinte em vinte segundos no Atlântico Norte. (...) Somos gângsters ciganos furando moleskines e usando óculos ray ban em território estrangeiro.

29.07.2008
Vertemos nossas colunas vertebrais sobre o teclado, posicionando os pares de câmeras de nossos olhos no contrafluxo da videoteca universal, restaurando memórias premonitórias do nosso mundo manifesto. Já se passaram sete dias desde um meio-dia numa calçada em Astoria, Queens; eu já quis estar em mais de um lugar ao mesmo tempo, já vi gente comendo em trânsito; peguei o trem pro leste, de Jamaica pra Babylon.

30.07.2008
A cidade de tijolos amarronzados à altura do peito, de ônibus sobre uma ponte podemos apreciá-la em sua magnitude. À nossa volta, os descolados sustentados por pais que foram yuppies bem-sucedidos: estamos em Williamsburg. Coleto todas as publicações que encontro pela frente, atento para o ethos dessa geração de novaiorquinos. As duas torres de 110 andares, riscadas do mapa, são a grande presença ausente da ilha transnacional de Manhattan. O sertão vai virar Mãe Ratã, ratazana-Roma, glocaldeia sem água.

Friday, July 18, 2008

vou para onde é verão

"Viajar, para que e para onde,
se a gente se torna mais infeliz
quanto retorna? Infeliz
e vazio, situações e lugares
desaparecidos no ralo,
ruas e rios confundidos
(...)

Mas ficar, para que e para onde,
se não há remédio, xarope ou elixir,
se o pé não encontra chão onde pousar,
(...)
se viajar é a única forma de ser feliz
e pleno?
"

(Waly Salomão, "Poema jet-lagged", do livro "Algaravias", 1996)

"(...) acontecimentos imprevisíveis de todos os tipos estão à espera, de tocaia, para te surpreender e te fazer ficar satisfeito simplesmente por estar vivo para presenciá-los (...)"

(Jack Kerouac, "On the road", p. 171 da da 1a. edição na Coleção L&PM Pocket)

"A apropriação e a transformação dos textos anteriores, para produzir um novo texto, não é evidentemente um privilégio das literaturas latino-americanas. Mas o intertexto é, para estas, uma espécie de fatalidade, o destino daqueles que vieram tarde demais, quando tudo já parecia ter sido dito. (...) A imitação é então substituída por um exercício voluntário e abusado de plágio e de colagem."

(Leyla Perrone-Moisés, "Vira e mexe, nacionalismo - Paradoxos do nacionalismo literário", p. 125)

nos ensaios, conferências, notas de cursos e artigos contidos em "Vira e mexe, nacionalismo" (2007), leyla perrone-moisés demonstra como conceitos estanques como "identidade nacional", "centro" e "periferia", entre outros, podem ser relativizados em favor de concepções mais abrangentes de cultura e pertencimento.

"(...) o presente e o passado como um espaço de simultaneidade, sincrônico, onde o novo que se faz hoje dialoga perfeitamente com o novo que se fazia ontem, num território a-temporal ou sobre-temporal (...)"

(Haroldo de Campos, em "Aspectos da poesia de vanguarda no Brasil e em Portugal", entrevista de Haroldo de Campos a E. M. de Melo e Castro, publicada no livro "Ruptura dos gêneros na literatura latino-americana", p. 51)

Thursday, July 10, 2008

Ode à cidade de Nova York em estilo coloquial

"Aqui está Nova York", de Elwyn Brooks White, proporciona uma viagem no tempo a uma Nova York que, no final dos anos 40, vivia um momento de transformação constante, prosperidade e confiança no futuro. Considerado um dos melhores livros sobre a cidade-símbolo do capitalismo e do charme do american way-of-life, o texto - escrito no Verão de 1948, “durante uma onda de calor”, e originalmente publicado em forma de artigo na revista Holiday - tem tradução de Ruy Castro, traça um retrato certeiro da metrópole e dispara: a solidão e a privacidade são as principais “dádivas” que ela oferece a seus habitantes.
White tinha morado lá na juventude, quando era apenas um aspirante a escritor, deslumbrado com o fato de estar na mesma ilha que a poeta Dorothy Parker. Para escrever "Aqui está Nova York", deixou sua fazenda no interior do Maine, para onde se mudara em fins dos anos 30, e instalou-se durante alguns dias num quarto de hotel no centro, a 33 graus, sem ar-condicionado. Enquanto isso, andava por Manhattan, observando tudo. O leitor acompanha o autor em suas perambulações algo nostálgicas por lugares célebres, como Central Park, Broadway, Greenwich Village e a estação de metrô Grand Central (um “mafuá”, segundo White).
Ele descreve em tom saudoso as alterações ocorridas na paisagem de bairros e quarteirões que lhe eram familiares. Suas lembranças incluem personagens que tinham ido embora (Hemingway, Whitman) e ruas e prédios que não existiam mais. “A Broadway mudou num aspecto”, anota. “Costumava ter uma discernível estrutura óssea sob sua superfície brilhante; mas os luminosos são agora tão grandes que os edifícios, lojas e hotéis parecem ter desaparecido sob as luzes e letras em néon.”
Com o olhar atento para detalhes reveladores desse tipo (uma jovem italiana penteia o “longo cabelo preto-azulado”; um solo de trompete soa ao mesmo tempo que a sirene da chalupa Queen Mary), o autor compõe uma ode a Nova York em estilo coloquial. O resultado pode ser classificado como equivalente ao que no Brasil se conhece como crônica: um registro informativo e poético do cotidiano.
E. B. White (1899-1985) nasceu em Mount Vernon, no estado de Nova York, formou-se pela Universidade de Cornell e trabalhou como jornalista nas revistas Harper’s Magazine e The New Yorker. Consagrou-se como autor de livros infantis, entre eles "Stuart Little", de 1945, que foi transformado há três anos em um filme que acaba de ganhar uma seqüência.

Resenha publicada no caderno Folha da Bahia, do jornal Correio da Bahia, em 06/10/2002

Thursday, July 03, 2008

trechos do caderno "van gogh"

28.06.2008.
Subsídios para "Silva horrida". Aproveitei a vinda ao Rio de Janeiro, em função da entrevista no Consulado Norte-Americano para obtenção do visto de turista, para fazer pesquisas na Biblioteca Nacional. Encontrei o livreto "Os nordestinos em Sâo Paulo - Depoimentos" (Ed. Paulinas, 1982). Alguns trechos: "a roça lá também é poluída, é igualmente São Paulo. (...) a poluição da roça é que as pessoas não são todas bem tratadas, igualmente o pessoal da cidade. As crianças não são bem tratadas como as que mora na cidade. A água que se bebe não é bem cuidada como a água da cidade. (...) O trabalho é na agricultura e a pessoa se corta, se fura (...). Eu pensei que deveria partir para outro lugar, para ficar mais insufocado, mais à vontade" (depoimento de Lourinho, p. 18). O livro transcreve diálogos entre moradores de Cajamar, a 29 km de São Paulo capital, nordestinos de Ipirá, Bahia, operários metalúrgicos ou trabalhadores em frigoríficos. Sobre o motivo da decisão de migrar, Júlio fala da "propaganda de que Sâo Paulo é isso, é aquilo" (p. 26). Depoimento de Margarida: "Na hora de pegar a condução pensei: 'Vou ou fico, vou ou não vou? Vou me dar bem ou vou me dar mal?' Mas eu falei: 'Sempre tive essa idéia de ir, eu vou. Todo mundo vai e consegue, porque tem vontade consegue lutar e vencer, por que é que eu não vou?'" (p. 26).


30.06.2008.
Novamente na Biblioteca Nacional. Folheio "Sertanejos contemporâneos: entre a metrópole e o sertão", de Rosani Cristina Rigamonte (Humanitas/USP, 2001) (...). À p. 118, Rigamonte aborda "a iniciativa de um grupo de amigos destinada a sanar as dificuldades de transporte rodoviário entre certas regiões do sertão da Bahia e São Paulo. Esse grupo, formado por antigos migrantes, percebendo o grande afluxo de então [anos 60], inauguraram [sic] uma verdadeira ponte entre esse dois pólos. Adquiriram algumas camionetas (modelo: peruas kombi, da marca Volkswagem [sic]) e criaram uma linha Nordeste-Sudeste-Nordeste ligando os municípios da região de Vitória da Conquista (...) com São Paulo. Em pouco tempo tinham um cronograma completo com datas e horários". Mais adiante: "Os referidos caminhoneiros realizam um pouco o sonho de todos os que partiram e de todos os que ficaram. Podem estar em São Paulo, viver em São Paulo, mas com apenas dois dias de viagem retornam ao sertão baiano, entregam suas encomendas, revêem os amigos, os parentes, recebem notícias, matam saudades e, mais dois dias, pronto, já estão em São Paulo de novo. Estão sempre em contato com os dois mundos, o daqui e o de lá" (p. 122). E ainda: "Muitos consideram como positivo o intercâmbio entre São Paulo e a terra natal (...). Sobrando poucas alternativas para uma fixação definitiva no sertão, o constante movimento de ir e vir acaba se tornando uma estratégia para aproveitar melhor as oportunidades onde elas estiverem. O que fica claro é que estes indivíduos adquirem mobilidade mediante a adaptação à dinâmica dos dois universos. Depois de organizado e conhecido [sic] os mecanismos de inserção na metrópole e no seu mercado de trabalho, não há mais muitas dificuldades para reiniciar o processo. É possível estar no sertão quando necessário, e também retornar à metrópole no momento do trabalho (p. 139). Depoimento de Belizário, 54, que "chegou pela primeira vez a São Paulo no ano de 1959": "No princípio a gente faz de tudo e precisa aprender, é muito sofrido. Mas depois que pega o jeito, a cabeça abre mais, e aí tudo se desenrola, parece que a gente ganha mais força para viver estar vida. Aprendi a andar na cidade, a procurar emprego, e ainda aprendi o caminho de ida e volta da minha terra. Então ficou tudo muito mais fácil" (p. 140). Outro trecho: "Os frequentadores da Praça Silvio Romero (...) participam de certa forma de ambos os pólos, e otimizam as oportunidades de uns e de outros [sic]: quando é época de seca no Nordeste, aproveita-se da oferta de trabalho em São Paulo; o período de chuvas é utilizado para o trabalho na roça; e quando é férias em São Paulo, é momento de festa no sertão. O ano compõe-se de momentos de pico revezados entre São Paulo e sertão" (p. 161). Folheei também, muito por alto, o livreto "Brasileiros na Hospedaria de Imigrantes - A migração para o Estado de São Paulo (1888-1993)", localizando a seguinte informação: "A Secretaria da Agricultura, Indústria e Comércio do Estado de São Paulo, através do Departamento Estadual do Trabalho criou, a partir de 1939, em duas cidades mineiras - Pirapora e Montes Claros - postos avançados, onde os migrantes eram recrutados. A primeira, porto fluvial do Rio São Francisco, recebia nordestinos procedentes de vários Estados que chegavam àquela cidade, via Juazeiro (Bahia) e Petrolina (Pernambuco)" (p. 23). O livreto contém resumo de trechos da tese de doutorado "Caminhos cruzados: a migração para São Paulo e os dilemas da construção do Brasil moderno nos anos 1930/50", defendida no Departamento de História, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas - USP, em abril de 2000, por Odair da Cruz Paiva. O livreto citado foi publicado pelo Memorial do Imigrante/Museu da Imigração em 2001. Há um depoimento de um certo senhor Afonso da Silva às páginas 41 e 42: "Eu vim de Senhor do Bonfim, Estado da Bahia. Ali em 1938, 1940 ia algumas pessoa daqui [São Paulo] pra lá e chegava lá e dizia que aqui era uma beleza (...) que aqui era bonito, tinha muito dinheiro (...) e aquilo acabou me atraindo. (...) aí em 1948 eu saí de lá de Serrinha, de Serrinha pegamos um caminhão que tinha umas tábua e tinha uns assento e tinha uma lona por cima que aquilo era os ônibus que existia naquela época (...) era os pau-de-arara (...) então de lá eu fui até Feira de Santana, fiquei um dia numa pensão, no outro dia pegue [sic] um trem, desci em Jequié, fiquei lá três dias na pensão esperando caminhão, esse caminhão veio até Montes Claros (...) e de lá para São Paulo. São Paulo a gente chegava aqui, todo mundo conhecia a estação Roosevelt, naquela época era a estação do Norte, que todo mundo que era do Norte vinha ali (...)".
"Casas fechadas, terras abandonadas. Agora o verdadeiro dono de tudo era o mata-pasto, que crescia desembestado entre as ruas dos cactos de palmas verdes e pendões secos, por falta de braços para a estrovenga. Onde esses braços se encontravam? Dentro do ônibus, em cima dos caminhões. Descendo. Para o sul de Alagoinhas, para o sul de Feira de Santana, para o sul da cidade da Bahia, para o sul de Itabuna e Ilhéus, para o sul de São Paulo - Paraná, para o sul de Marília, para o sul de Londrina, para o sul do Brasil. A sorte estava no sul, para onde todos iam (...)"

(Antonio Torres, "Essa terra", p. 89)


dividido em quatro partes - "Essa terra me chama", "Essa terra me enxota", "Essa terra me enlouquece" e "Essa terra me ama" - o livro do escritor baiano (lançado em 1976) "tematiza o retorno do nordestino que fracassou em São Paulo" (segundo definição de Marco Antonio Villa em "Vida e morte no sertão", p. 15). a narrativa polifônica, entrecortada, alterna as vozes do filho que migrou e retorna depois de 20 anos ("não sei se volto ou se fico. Acho que agora tanto faz. Porque o tempo que comeu o meu chapéu de palha, agora está comendo o lugar que deixei em São Paulo", p. 124), do filho que ficou, do pai e de vários outros personagens. a partir do terceiro capítulo, o romance efetivamente "enlouquece", acentuando seu caráter fragmentário e incorporando a confusão mental da mãe e a desagregação familiar à composição textual.

Monday, June 16, 2008

SAN MIGUEL DE TUCUMÁN, MAIO DE 2008

Mapa turístico de San Miguel de Tucumán

"Desde que se fue
triste vivo yo,
caminito amigo,
yo tambien me voy
"

("Caminito", tango de
Gabino Peñaloza
e Juan Filiberto, 1926)

Também em San Miguel de Tucumán, Argentina, é conhecido o mercado de livros usados da calle de Santa Fe, Buenos Aires, entre as estações Plaza Italia e Palermo. Eu, Sandro Ornellas e Katherine Funke chegamos até lá por acaso, em nosso apressado passeio de apenas três horas na capital argentina, dispostos a aproveitar o tempo livre entre dois vôos e guiados por nossa intuição detectora de especiarias, farejando obras de Cortázar e Borges, depois de descer de um táxi, na Plaza Julio Cortázar, e de percorrer toda a calle Jorge Luis Borges.
Mas como fomos parar em Tucumán? Pela literatura, como não podia deixar de ser.
Participamos da noite de encerramento do evento literário Mayo de las Letras, na sede do Ente Cultural de Tucumán, órgão cultural do governo da província, que nos convocou, juntamente com a Secretaria de Cultura do Estado da Bahia, para apresentar um recital de literatura baiana. Nosso grupo de escritores C.O.R.T.E. (sigla de Cazé, Ornellas, Rios e Trindade) - desta vez sem dois dos cinco componentes (Gustavo Rios e Lima Trindade) - apresentou-se na noite de 30 de maio, no Teatro Orestes Caviglia, que fica no mesmo prédio do Ente Cultural. (...)
Todos os textos foram lidos em português. Pedimos à organização do evento que distribuísse cópias do programa do recital (também em português) a todo o público, como uma forma de facilitar a compreensão do que seria apresentado naquela noite. A barreira linguística, no entanto, não impediu que a comunicação se efetuasse, principalmente pelo papel de mestre-de-cerimônias desempenhado com habilidade por Katherine, que fala espanhol fluentemente. Durante o recital, ela conversou com a platéia, disse gracejos, anunciou o nome dos autores e, a meu pedido, fez uma breve explicação sobre o que é a literatura de cordel. Conforme tínhamos combinado, ela também convidou um voluntário da platéia a subir ao palco e dizer um poema de sua autoria (ofereceu-se um jovem de 18 anos, que recitou de memória). Depois da apresentação, que durou cerca de 30 minutos, as pessoas que nos abordaram disseram que, apesar de não compreenderem o português, tinham gostado do espetáculo, tinham conseguido entender algumas palavras e tinham, pelo menos, captado a atmosfera de cada texto, construída pela musicalidade da língua, pela entonação dos poetas em cena e pela música de fundo executada por Katherine.
San Miguel de Tucumán foi construída de acordo com a "traza", o plano uniforme que a colonização espanhola seguiu na América para a edificação de suas cidades: "A construção da cidade começaria sempre pela construção da chamada praça maior. (...) A praça servia de base para o traçado das ruas: as quatro principais sairiam do centro de cada face da praça. De cada ângulo sairiam mais duas, havendo o cuidado de que os quatro ângulos olhassem para os quatro ventos." (Sérgio Buarque de Holanda, "Raízes do Brasil", 13ª edição, p. 63). Ou: "uma grande praça no centro, uma grade de ruas perfeitamente retas que se estendiam dali em todas as direções, formando quarteirões quadrados ou retangulares (...) A cidade da América espanhola podia assim crescer indefinidamente através da expansão da traza, mantendo ao mesmo tempo a estabilidade quase total do centro" (Suart B. Schwartz e James Lockhart, "A América Latina na época colonial", p. 93)
A brevidade de nossa passagem pela cidade (apenas dois dias, com uma agenda apertada) não permitiu que explorássemos nada além de uma pequena fração da tal "estabilidade quase total do centro", já que o hotel que nos hospedou distava apenas três ou quatro quadras da sede do Ente Cultural. Da mesma forma, o contato que tivemos com a cultura e a literatura local foi rápido e pouco profundo. Conhecemos alguns escritores veteranos e iniciantes e trocamos livros com eles. Esse primeiro contato, porém, provocou em nós um interesse pela produção literária local e uma identificação mútua que certamente dará continuidade, via internet, ao intercâmbio já iniciado.
Nosso anfitrião durante a estadia em Tucumán foi o professor Ricardo José Calvo, atual diretor de letras do Ente Cultural de Tucumán. Ele tem pouco mais de 40 anos de idade, viveu metade desse tempo em Buenos Aires e metade em Tucumán. Especializou-se em linguística, particularmente na análise da estrutura do discurso político. Escreve ficção e dramaturgia. Calvo convocou alguns escritores tucumanos para um encontro conosco, na manhã do dia 30, na biblioteca do Ente Cultural, no primeiro andar. Foi assim que conhecemos Inés Aráoz, Liliana Maldonado de Bliman, José Miranda Villagra e o jovem Joaquín Acevedo.
Liliana Maldonado de Bliman nos presenteou com "Dishos y pishos - Cuentos e refranes" (editado pela tucumana Associación Argentina de Lectura, 2006), escrito em parceria com Jacobo Cuño. De ascendência judia, seu livro é uma compilação de costumes, lendas, receitas culinárias e expressões típicas da comunidade sefardita (de descententes de judeus) tucumana.
Apesar de não ter dito palavra durante a reunião e de ter se retirado cedo, o compositor, cantor, escritor e folclorista José Miranda Villagra nos marcou pela obra que escreveu e nos entregou. O alentado volume "El folclore, en el lenguaje, la esencia y el amor" (publicado pela tucumana Ediciones El Graduado, 2005) parece ser um trabalho de cunho didático, dedicado a situar as tradições populares argentinas e tucumanas no cenário contemporâneo: "El peligro latente que se cierne sobre esta disciplina y su objeto o motivo de estudio, identificado con los fenómenos folclóricos, como derivación de un acontecimiento mundial, reconocido como el fenómeno de la globalización" ("Prefacio", p. I). Preocupação que permeou toda a conversação com os escritores tucumanos e com a qual comungamos, bem como muitos artistas e pesquisadores brasileiros e baianos.
Inés Aráoz, 62 anos, é uma intelectual mais ligada à tradição literária ocidental canônica, com forte presença da literatura russa em seu trabalho (aparentemente, ela descende de russos). Trouxemos dois livros dela: "Balada para Román Schechaj" (2006) e "La comunidad - Cuadernos de navegación" (2006), publicados respectivamente pelas editoras Ediciones del Copista (sediada na cidade de Córdoba) e Nuevohacer (Buenos Aires). Inés participou do júri que elegeu os textos premiados no concurso literário integrante do evento Mayo de las Letras.
O jovem Joaquín Acevedo é estudante de literatura e conhece a literatura brasileira mais do que todos os outros escritores veteranos com quem conversamos, demonstrando grande interesse por nosso trabalho. Acevedo disse já ter lido traduções de Guimarães Rosa, citou Graciliano Ramos e, em poucos instantes, pôde reconhecer a influência da poesia concreta no livro de Sandro Ornellas. Acevedo teve uma participação importante nessa reunião literária matutina: com seus conhecimentos de português, ajudou-me a traduzir um poema de meu livro "Microafetos" para o grupo, que não compreende nossa língua. A experiência de ler esse poema em voz alta, bem como um trecho de meu folheto de cordel "A filha do Imperador que foi morta em Petrolina", para um grupo de escritores de outro país, falantes de outra língua, foi um momento de enorme satisfação para mim. Nesse momento, percebi a importância de manter uma troca de informações com escritores de fora do Brasil e o potencial de uma ponte cultural como essa, e decidi preparar, nos próximos meses, uma edição traduzida para o espanhol de meu folheto de cordel.
Essa percepção se aprofundou após o recital do dia 30, quando travamos contato com alguns escritores jovens ganhadores de prêmios no concurso literário integrante do Mayo de las Letras: Jorge Nicolás Tolosa (primeiro colocado no Género poesía), Federico Miguel Soler (terceira menção honrosa no gênero conto), María Eugenia Méndez (também atriz, primeira menção honrosa em poesia) e Marcos Bauzá (também artista plástico, segunda menção honrosa em poesia). Com os dois primeiros, tivemos maior aproximação, convidados que fomos, por eles, a participar da comemoração que fariam após a entrega dos prêmios. Nessa comemoração, fizemos um mini-recital informal, e pudemos escutar alguns versos de Nicolás Tolosa (meditativos, com um cunho espiritual e beatnik) e de Federico Soler (surrealistas, verborrágicos). (...)
Foi uma grande responsabilidade, uma honra e um desafio representar a Bahia (e o Brasil, já que todos os outros participantes do evento eram argentinos) num evento internacional. (...) A viagem a Tucumán ficará para sempre em minha memória também porque foi nela que, pela primeira vez, preenchi o campo “profissão” da ficha de check-in de um hotel com a palavra “escritor”.

Tuesday, June 10, 2008

um exemplar (o último que tinha sobrado da tiragem de 600 cópias feita em 2004) de meu folheto de cordel "A filha do Imperador que foi morta em Petrolina" será exposto numa mostra sobre literatura de cordel dentro do Poesiefestival Berlin, que acontece no foyer da Akademie der Kunste, na capital alemã, de 5 a 13 de julho. considerado o maior evento do gênero na Europa, o Poesiefestival Berlin começou em 2003 e homenageia em 2008 a poesia em língua portuguesa com uma programação que inclui música, dança, performance e artes visuais. a curadoria da mostra de literatura de cordel é de Timo Berger.


Tuesday, May 27, 2008

"O 'entre-lugar' do imaginário agrário e urbano da cidade é até hoje referência ambígua em várias narrativas literárias e cinematográficas. O espaço cosmopolita é narrado como plural: diverso e/ou adverso, principalmente ao enfocar personagens 'estrangeiros', como os migrantes nordestinos. Nos enredos aparece a imagem da cidade empreendedora e trágica do 'capitalismo selvagem' (...); ao mesmo tempo, é uma imagem que desafia e desafina o discurso trágico com personagens líricos de extremo humanismo, sendo um contra-ponto irracional/racional no sistema capitalista, agenciando nos centros e periferias as forças telúricas e tradicionais da cultura rural dos migrantes (...)" (ps. 19-20)

(Cláudio C. Novaes, "Uma introdução longa-metragem", in: "Cinema sertanejo - O sertão no olho do dragão", Edições UEFS/MAC, 2007)
"Diferentemente das outras secas, a de 1951-1953 acabou impulsionando o fluxo migratório do Nordeste em direção ao Sul, principalmente para São Paulo, Rio de Janeiro e o oeste do Paraná (...). A melhoria dos meios de transporte, especialmente do transporte rodoviário, facilitou a viagem em busca de uma vida melhor, longe do latifúndio, da prepotência dos coronéis e do flagelo da seca. (...) Utilizando-se de vapores, que percorriam o rio São Francisco até Pirapora, de trens e de caminhões, centenas de milhares de nordestinos deslocaram-se para o Sul, sem nenhum apoio oficial, na maior migração da História do Brasil. (...) A avalanche foi espontânea e surpreendeu os governos. A estrada Rio-Bahia transformou-se no maior conduto dessa migração. A cada dia, dezenas e dezenas de caminhões, transportando de setenta a noventa pessoas em média, seguiam para o Rio de Janeiro e para São Paulo - cobravam-se, em média, 500 cruzeiros pela passagem (...). As péssimas condições da estrada, a superlotação dos caminhões, a falta de infra-estrutura à beira da Rio-Bahia acabaram dando tinturas épicas a esse movimento migratório. (...) a viagem durava entre oito e catorze dias (...)" (p. 170-171)

"(...) cada sertanejo assumia para si o enfrentamento da miséria secular: em vez de se travar na região um confronto com os poderosos, a migração transplantou para o Sul (...) a luta de classes. O sertanejo, agora como operário e participante da sociedade de massas, passava a ser um agente da História - com todas as limitações oriundas do populismo - no pólo mais dinâmico da economia capitalista brasileira" (p. 176)

(Marco Antonio Villa, "Vida e morte no sertão - História das secas no Nordeste nos séculos XIX e XX")




"Vida e morte no sertão - História das secas no Nordeste nos séculos XIX e XX", de Marco Antonio Villa (Ed. Ática, 2000, 274 páginas) reconstitui décadas e décadas de agruras do povo, descaso dos governos, saques, doenças e migrações coletivas, numa reincidência que induz o historiador a constatar, ao término de sua narrativa (no ponto em que começa a gestão Figueredo): "Os fatores de conservação transformaram o semi-árido em uma região aparentemente sem História, dada a permanência e imutabilidade dos problemas. Como se com o decorrer das décadas nada tivesse se alterado e o presente fosse um eterno passado" (p. 252).

Friday, May 23, 2008

Eu, Sandro Ornellas e Katherine Funke faremos um "Recital de Poesia Baiana" no encerramento do evento Mayo de Las Letras, na cidade de San Miguel de Tucumán, noroeste da Argentina, na sexta-feira, 30 de maio de 2008, às 20h30, na Sala Caviglia (Rua San Martín, 251). Lerei trechos de meu folheto de cordel "A filha do Imperador que foi morta em Petrolina" (de 2004) e de poemas de Gregório de Mattos e fragmentos de contos dos bróders Gustavo Rios, Patrick Brock e Paulo Bullar. Sandro lerá poemas da própria lavra e versos de Waly Salomão e Lupeu Lacerda. Na trilha sonora do recital, Katherine vai tocar violão elétrico e também cantar um pouco. Na véspera, no mesmo local, às 20h, Sandro Ornellas, que além de poeta é professor de letras da UFBA, apresentará a palestra “Literatura baiana: Entre 'regionalismo' e 'cosmopolitismo' ”, tratando do cenário atual das letras em nosso estado. Quem nos leva é a Secretaria de Cultura do Estado da Bahia, com apoio do Ente Cultural de Tucumán. Hasta la vista!

Wednesday, May 07, 2008

MÃE NATUREZA VIVA

A Mãe Natureza Viva
passa, pássara de água,
por entre ondas de fogo,
carregando seu caçula
no casulo de seus braços
para o ninho e o repouso.

Contra os perigos do mundo
protege sob suas asas
o pequenino rebento.
Frutas extrai dos cabelos
para servir de alimento.
À noite, vela-lhe o sono.

Quando o planeta amanhece,
ao infante ela oferece
leite que tira de pedra.
Mãe é deusa, casa, estrela.
Todo obstáculo enfrenta
para que seu filho cresça.


Wladimir Cazé © 2008


Acrílico sobre tela: Ery Cruz

Tuesday, April 29, 2008

o bioma caatinga ocupa uma área de 1.037.000 quilômetros quadrados (cerca de 12% do território brasileiro), abrange 1.280 municípios em nove estados (PI, CE, RN, PB, PE, AL, SE, BA e parte de MG) e conta com 28 milhões de habitantes (16% da população do país). "Dos 500 menores IDH municipais do Brasil, 306 são de municípios do Bioma Caatinga, representando 47,5% desta faixa indesejável de exclusão social, mesmo tendo menos de 20% dos municípios" (in: "A flora do Raso da Catarina", Arthur Lima da Silva & Wbaneide Martins de Andrade, p. 81 de "As caatingas - debates sobre a ecorregião do Raso da Catarina", Editora Fonte Viva, 2007, livro-produto de um seminário realizado nos dias 27, 28 e 29 de abril de 2007, em Paulo Afonso/BA, com pesquisadores da fauna, da flora e das populações da região).


"(...) a literatura regionalista glorifica a figura do sertanejo, apropriando-se de sua linguagem e de suas idéias, acolhendo no universo intelectual o cretinismo endêmico de sua cultura." (p. 61)

"Ao incorporar os elementos da cultura sertaneja, a literatura regionalista atribui ao homem comum o poder de interpretar a realidade, conferindo uma dimensão alegórica às suas atividades cotidianas, mitificando-lhe a mentalidade vulgar, de sua linguagem às suas crendices, como se séculos de obscurantismo tivessem gerado um maior grau de compreensão do mundo." (p. 88)

"Os sertanejos são condenados a viver sem um motivo. É esta a mensagem que a verdadeira literatura precisa dar. (...) A verdadeira literatura demonstra que o sertanejo não sabe nada, não muda nada, não aprende nada, não entende nada, não vale nada. A verdadeira literatura destrói as veleidades do homem acerca de si." (p. 90)

(Diogo Mainardi, "Polígono das secas")

espécie de meta-romance-pseudo-ensaio, "polígono das secas" (1995), de diogo mainardi, investe contra a literatura regionalista nordestina, pondo em cena um enigmático personagem, o "untor", que "é como o autor" (p. 118) e que percorre o semi-árido disseminando a morte de retirantes, coronéis, jagunços, vaqueiros, violeiros, cangaceiros, etc., e subvertendo tradições e temas recorrentes do universo sertanejo

Saturday, April 26, 2008

na terça-feira, 29 de abril, completam-se 28 anos da morte do diretor de cinema Alfred Hitchcock (1889-1980). em homenagem a ele, a edição de hoje do caderno "Cultural" do jornal A Tarde publicou, ilustrado por Gentil, o meu poema a seguir:

"Os pássaros"

Aos mestres Alfred Hitchcock e André Setaro
Gaivotas raivosas,
agressivas, atacaram
uma cidade indefesa
à beira da Baía.

Os animais, ensandecidos,
ocuparam a paisagem
do lugarejo pacato,
tal qual uma ameaça ambiental.

Cada criatura aeromarítima
fazia a descida rápida
da ave de rapina
que mira a presa e cai para cima.

Uma visitante ilustre
teve a testa atingida
pelo golpe de um bico agudo,
ficou feia a ferida.

Outras mulheres e crianças
também sofreram bicadas
certeiras na cabeça,
tiveram as roupas rasgadas.

Na festa de aniversário,
adolescentes alvejados
foram, por bandos enfezados,
sem dó nem piedade.

Nuvem de passarinhos
choveu através da chaminé,
jorrando dentro da sala
e fazendo uma baderna.

Um viúvo foi achado
morto dentro de casa,
com os dois olhos furados,
xícaras quebradas.

Tais fatos desencadearam
medo e desespero,
abalaram a tranquilidade
daquela comunidade.

Os corvos vieram em ordem,
um a um empoleirados
nos brinquedos da escola,
prontos para infernizar.

Os pássaros de agouro mau
como fumaça ou nevoeiro
tiraram o sossego
de todo o pessoal.

Corvos pretos, alvas gaivotas,
aves de várias espécies,
aparentemente nervosos,
fenômeno inexplicável.

Suas vozes cruzavam os ares
como o som de ferragens rangentes
e apavoravam os moradores
disseminando o suspense.

Uma gaivota desferiu
um golpe veloz e certeiro
no rosto do frentista
no posto de gasolina.

Socorro, gritou alguém do povo,
na tentativa de fuga.
O caos tomou a rua,
sangue, pânico, fogo.

Os corvos, quem pensam que são?
O que se passa com as gaivotas?
Para que causam confusão?
Por que perturbam a ordem?

Depois de dois dias
de ofensivas sobre a vila,
já se tinha várias vítimas,
algumas com risco de vida.

Só um casal de periquitos
permanecia quieto,
sério, no meio do desvario,
confabulando em silêncio.

Apenas aqueles mulher e homem
mantinham o sangue frio
e estavam calmos e atentos
no mais louco Paraíso.

Wladimir Cazé © 2008

Friday, April 25, 2008

"Criei-me nos mangues lamacentos do Capibaribe cujas águas, fluindo diante dos meus olhos ávidos de criança, pareciam estar sempre a contar-me uma longa história. O romance das longas aventuras de suas águas descendo pelas diferentes regiões do Nordeste: pelas terras cinzentas do sertão seco, onde nasceu meu pai e de onde emigrou na seca de 1877 com toda a família, e pelas terras verdes dos canaviais da zona da mata, onde nasceu minha mãe, filha de senhor de engenho. Esta era a história que me sussurrava o rio com a linguagem doce de suas águas passando assustadas pelo mar de cinza do sertão, caudalosas pelo mar verde dos canaviais infindáveis e remansosas pelo mar de lama dos mangues, até cair nos braços do mar de mar."

(Josué de Castro, "Homens e caranguejos", 2ª edição, p. 16)



"homens e caranguejos" (1967) é o único livro de ficção do médico e geógrafo pernambucano josué de castro (1908-1973) e esteve fora de catálogo por décadas até o lançamento desta segunda edição pela editora civilização brasileira (2005). com uma prosa leve, vívida, bem-humorada e até didática, narra o cotidiano dos moradores de uma favela à beira de um mangue no recife.
"(...) talvez esse lugar para onde iam fosse melhor que os outros onde tinham estado. (...) Chegariam a uma terra distante, esqueceriam a catinga onde havia montes baixos, cascalhos, rios secos, espinho, urubus, bichos morrendo, gente morrendo. Não voltariam nunca mais (...). Fixar-se-iam muito longe, adotariam costumes diferentes. (...) andavam para o sul, metidos naquele sonho. Uma cidade grande, cheia de pessoas fortes. (...) Chegariam a uma terra desconhecida e civilizada, ficariam presos nela. E o sertão continuaria a mandar gente para lá. (...)"

(Graciliano Ramos, "Vidas secas", 57ª edição, ps. 121-126)

publicado há exatos 70 anos, o breve romance (ou conjunto de contos semi-independentes) "vidas secas" é uma lição de estilo e rigor formal. li-o pela primeira vez no começo dos anos 1990 e estive relendo-o na semana passada, captando suas ressonâncias temáticas (obviamente) e estruturais (fuga-permanência-fuga) no meu (a-ham!!...) romance in progress. o livro é tão bom que terminei de ler e recomecei no mesmo instante.

Tuesday, April 22, 2008

nesta quarta-feira, 24 de abril, das 19h às 21h, acontece em Porto Alegre (RS), na Casa de Cultura Mario Quintana, o lançamento da 1ª edição da revista-pôster Teia de Poesia, que conta com um poema conhecido dos leitores deste blog (meu "Barata", publicado em post do dia 28 de janeiro). o grupo Teia de Poesia é formado por Diego Petrarca, Lorenzo Ribas e Telma Scherer (autora do belo livro de poemas "desconjunto", publicado em 2000) e realiza recitais desde 2002. Ao todo, 10 poetas participam da 1ª edição da revista-pôster, entre gaúchos e paulistanos (Berimba de Jesus, Eduardo Lacerda) e etc.

Thursday, April 10, 2008

a poeta gaúcha angélica freitas estreou em livro no ano passado, com "rilke shake" (cosac naify), pequeno volume que alterna três séries de poemas com sabor de mimeógrafo: uma primeira se volta em verve satírica para o cânone do modernismo (mallarmé, pound, marianne moore); uma segunda enfoca uma infância quase bucólica em contato com os signos do consumo ("um fusca / vermelho bala soft", p. 45); e uma terceira, na qual ganha voz uma jovem adultidade estilhaçada no panorama internacionalizado dos dias de hoje, manifesta em ecos de palavras estrangeiras (inglês, francês, espanhol, nomes próprios em húngaro, russo, polonês) e num eu-lírico nômade e iconoclasta - que chega a metamorfosear a própria autora em uma artéria urbana ("alça vôo a aventura na avenida angélica", p. 55), a quase dissipar-se "entre o canteiro central da paulista e a vista do vão do masp" (p. 55)

Friday, April 04, 2008

"Fiquei irritado hoje porque meu original não está tão bom quanto deveria, mas esse é um sentido de perfeição olímpico, não humano. Levaria outro ano, talvez mais, para 'aperfeiçoar' (...), e isso não faz sentido (na verdade, não ficaria melhor, segundo padrões de trabalho humanos). Allen Ginsberg insiste que eu o 'aperfeiçoe', mas ele é um poeta, e um escritor de versos é assim. O romancista sempre tem outra grande história para escrever, não tem tempo para lapidar suas histórias velhas, não é um decorador, mas um construtor. Além disso, percebo que pelo menos a minha literatura, apesar de imperfeita, é original no sentido original dessa palavra... é meu pensamento, nada apanhado das terminologias do tempo, minhas próprias palavras, meu próprio trabalho estranho." (Jack Kerouac, diário pessoal, sexta-feira, 18 de junho de 1948)


"Diários de Jack Kerouac, 1947-1954" (tradução de Edmundo Barreiros, 360 p.) reúne registros pessoais do escritor entre seus 25 e 32 anos de idade, período em que, sem emprego fixo, morando com a mãe e dedicado quase exclusivamente à literatura, escreveu seus primeiros romances, "The town and the city" (cujo manuscrito alcançou 1.100 páginas datilografadas!!) e "On the road", entre noitadas colossais em nova york e viagens de costa a costa pelos Estados Unidos

Monday, March 31, 2008

lançado há poucas semanas, "para colorir" reúne crônicas de ricardo cury, baterista (desde 1994) de inúmeras bandas baianas. "nem de longe uma autobiografia", conforme o autor observa no "prólogo", a organização dos "textos em uma determinada ordem (...) acabou fazendo com que o livro ficasse parecido, e apenas parecido, com um romance" (p. 12) bem-humorado sobre o cotidiano cultural de salvador (futebol, carnaval) e sobre o dilema de seguir uma profissão convencional ou viver de rock na terra do axé - entre capítulos que contam viagens ao vale do capão (chapada diamantina), à europa, a países do mercosul (chile e argentina) e a são paulo.


"seis passeios por cidade de deus" (universidade estadual de feira de santana, 2007) reúne artigos curtos sobre diversos aspectos dos dois "cidade de deus" (o livro e o filme), particularmente a passagem da "dialética da malandragem" (apud antonio cândido e roberto da matta) para a "dialética da marginalidade" (apud joão cezar de castro rocha). a professora patricia cerqueira escreve sobre os "assaltos literários de paulo lins", ou seja, as reapropriações textuais - assumidas pelo autor do romance "cidade de deus" numa entrevista de agosto de 1997 - de trechos de obras de dostoiévski, josé lins do rego e carlito azevedo. o livreto inclui uma entrevista com o crítico de cinema ismail xavier ("convergências cinema e literatura").

Monday, March 24, 2008

trechos do caderno "van gogh"

23.2.2008.
(...) já sobrevoamos o oceano, agora o continente. as águas de um rio barrento arreganham garras vermelhas, cravadas na terra verde. uma cidade (qual?) ocupa as duas margens de um outro rio e a ilhota entre elas, totalmente urbanizada. (...)

24.2.2008.
(...) de outras vindas ao rio, explorei copacabana, niterói, ipanema e santa teresa. a lapa é o ponto de partida agora. domingo de ruas vazias no centro sujo e pobre, durante meu tradicional passeio sozinho. (...) toda viagem é pontuada por coletas, ao final do trajeto rastros congelados em objetos: fotografias, folhetos, livros, recortes de jornal. suei sob o ar abafado, pés cansados do giro a esmo. carioca, cinelândia... (...)

25.2.2008.
no gabinete portuguez, localizo uma "antologia de páginas íntimas" de kafka (seleção, prefácio e tradução de alfredo margarido, guimarães editores, 1961, lisboa, rua do diário de notícias, 61), com trechos dos diários de 1910 a 1923. copio sempre as anotações em que kafka reclama de como escrever é difícil: "nem uma palavra, quando escrevo, se conjuga com outra, ouço as consoantes chocarem-se, soando ocas" (1910, p. 38), "um conhecimento de nós só poderia ser definitivamente fixado por notas se tal pudesse fazer-se com a maior integridade, até nas menores consequências, ao mesmo tempo que com a mais inteira veracidade. isso não se faz de modo algum - e sou em todo o caso incapaz -, então, o que se anotou substitui, intencionalmente e com toda a força do que é fixado, o sentimento puramente geral, tanto e tão bem que o justo desaparece, enquanto se reconhece demasiado tarde a não-valia do que se anotou" (1911, p. 45), "tenho a crença infeliz de que não disponho de tempo para realizar o menor trabalho válido, porque, para escrever uma história, não tenho verdadeiramente tempo de me dispersar em todas as direções, como seria necessário. de novo sou levado a crer que a minha viagem poderia efectuar-se melhor e que saberia apreender melhor as coisas se me libertasse, escrevendo um pouco e é por isso que tento novamente" (1911, p. 56), "tudo está preparado em mim para um grande trabalho poético e (...) semelhante trabalho seria para mim uma divina solução e um autêntica entrada na vida, enquanto aqui no escritório devo, em nome de uma miserável papelada, arrancar um pedaço de carne a este corpo" (1911, p. 65), "carne crua" (p. 65), "carne cortada em mim (tanto esforço me custou encontrá-la)" (p. 65). a "carne" a que kafka se refere na última citação é a palavra, não a palavra poética, mas o jargão jurídico usado profissionalmente como funcionário da companhia de seguros. (...) no salão de leitura da biblioteca nacional (...) trouxeram-me "diário de viagem" (kafka, traduzido do alemão por marcelo rouanet, organização, prefácio e notas por cecília prada, ed. atalanta, são paulo, 1998), livro que eu não conhecia, e, também novo para mim, "diários" (tradução de torrieri guimarães, ed. itatiaia, belo horizonte), seleção de trechos diversa da que encontrei pela manhã. comecei a ler este último, a partir de 1912. às vezes, kafka parece entusiasmar-se com sua produção e reconciliar-se com a escrita, como quando relata o processo criativo do conto "o veredito": "todas as coisas podem ser ditas, todas as idéias que chegam ao espírito, por mais abstrusas que sejam, são aguardadas por um enorme fogo onde sucumbem e ressuscitam" (1912, ps. 91 e 92 da tradução de torrieri). em outro momento, "minha capacidade de escrever perde-se" (sem data, p. 166 da tradução de torrieri), anota kafka. outros tópicos que também poderiam ser pesquisados em seus diários: a solidão, a tensão entre o trabalho no escritório e o trabalho literário. as edições em português que até agora encontrei são seletas dos diários completos, não contém o texto integral que achei em alemão (ICBA, salvador) e em francês (gabinete portuguez, rio).

26.2.2008.
encontrei ainda "o diário íntimo de kafka - único e exclusivo" (tradução de oswaldo da purificação, nova época editorial, sem data), no instituto goethe (rua do passeio), também uma coletânea de passagens do diário, com a curiosidade de que elas vêm sem ano (exemplo: "domingo, 19 de julho"). esta biblioteca tem todas as versões dos diários de kafka já citadas, sendo que a "antologia de páginas íntimas" em reedição de 1997. (...) a história de minha perseguição aos escritos pessoais de kafka continua na biblioteca rodolfo garcia, da academia brasileira de letras (avenida presidente wilson, 231), onde se encontra "franz kafka en testimonios personales y documentos gráficos", de klaus wagenbach (alianza editorial, madrid, 1970), biografia curta, com fotos, sem grandes atrativos. (...)

27.2.2008.
o diário de leituras avança, plenamente instalado no cotidiano literário que criei aqui no rio de janeiro. o aspirador de pó do gabinete portuguez agride o ambiente, pára de fazer ruído, recomeça a zunir, quebra minha introspecção. "e a gente não tem outro remédio senão gastar as horas a fabricar esta prosa travada, mais circunlóquio menos circunlóquio, esta prosa perra e oca" (miguel torga, diário, I, 1932). fui atrás de outras traduções para os trechos dos diários de kafka copiados dois dias atrás: "nem uma palavra, à medida que eu escrevo, conjuga-se com outra, escuto consoantes que se chocam, soando ocas" (1910, p. 28 da tradução de torrieri), "um conhecimento de nós próprios apenas poderia ser definitivamente fixado através de notas se isso se pudesse fazer com a maior lisura, mesmo nas mais ínfimas consequências, do mesmo modo que com a mais completa veracidade. isso não é feito de maneira alguma - e sou de qualquer modo incapaz - então, aquilo que se anotou, substitui, com intenção e com toda a força do que é fixado, o sentimento puramente geral, tanto e tão perfeitamente que o sentimento exato deixa de existir, enquanto se reconhece muito tarde a não validade daquilo que se deixou anotado" (1911, p. 37, id.), "o sentimento aterrorizador de que tudo está preparado em mim para um enorme trabalho poético e de que tal labor seria para o meu caso uma solução divina e uma verdadeira entrada na vida, ao passo que aqui no escritório devo, em nome de uma ínfima papelada, cortar um pedaço de carne a este corpo" (1911, p. 54, id.), "tenho a desgraçada intuição de que não disponho de tempo para concluir o menor trabalho válido, pois, para redigir uma história, não tenho realmente tempo de me dispersar em todas as direções, como necessitaria. outra vez sou induzido a acreditar que a minha viagem poderia realizar-se melhor e que aprenderia a compreender melhor as coisas se me libertasse escrevendo algo e é por esse motivo que eu tento outra vez" (1911, p. 46, id.).

29.2.2008.
sigo sempre meio à margem, no anonimato, nômade, fingindo-me invisível para não ser notado. capturo uma definição para os diários de leitura dos diários de kafka: "kafka 'antecipou' tanto o modo quanto as principais consequências dessas irrupções ['bruscas irrupções do acaso na vida cotidiana'] que dilaceram as ilusões de segurança manipulada, plasmando assim (...) o modo pelo qual a vida humana, em particular aquela do homem comum, é afetada pelas novas características da alienação capitalista" (carlos nelson coutinho, "lúkács, proust e kafka - literatura e sociedade no século XX", civilização brasileira, 2005, p. 154).

Tuesday, March 18, 2008

Boa noite, meus ouvintes!
Nós somos o grupo Corte!
Viemos mostrar nossos livros
e arriscar a nossa sorte!
Eu garanto que são bons!
Também fazemos um som!
Música e letra é nosso forte!

Katherine contribui
com sua musicalidade!
Vocês vão ouvir histórias
do Gustavo e do Trindade!
Sandro vai ler poesias!
Agradeço ao Messias
pela oportunidade!

"O amor é uma coisa feia",
está escrito aqui na capa!
De onde veio essa idéia? -
Pergunto a meu camarada!
Responda rápido, Gustavo!
O público já está bravo
e achando essa frase errada!

"Corações e serpentinas"
pintam nos contos do Lima!
Quadrinhos, cultura pop!
É mais ou menos esse o clima...
Peçam os seus autógrafos!
Preparem-se, fotógrafos!
Conheçam a obra-prima!

Este é "Trabalhos do corpo",
poemas de Sandro Ornellas,
variações e derivas
da vida e suas mazelas!
Aqui no pátio do ICBA,
o Remix-se ficou bala
e a festa está bela!

[versos de circunstância que recitei no evento de estréia do grupo Corte (Cazé, Ornellas, Rios, Trindade), sábado passado, no Pátio do ICBA, em Salvador. li também um trecho curto escrito no fim do ano passado. foi legal.]

Friday, March 14, 2008

semana que vem, pegarei a estrada para participar do "Panorama da Literatura Baiana Contemporânea", com os escritores Lupeu Lacerda, Sandro Ornellas, Gustavo Rios, Lima Trindade, Mayrant Gallo, José Inácio Vieira de Melo e Renata Belmonte. O evento - promovido pelo Departamento de Letras e Artes/Núcleo de Leitura, da UEFS, e pela equipe do blog-revista "Entre Aspas" - tem o objetivo de promover o encontro entre escritores e público para gerar um debate sobre os novos rumos da literatura na Bahia.

SERVIÇO
:

O que: "Panorama da Literatura Baiana Contemporânea"
Quando: 19 de Março de 2008 (quarta), das 8h às 18h
Local: Anfiteatro – módulo II (UEFS)

(clique na imagem para ver ampliar)

Thursday, March 06, 2008

RECITAL DE LITERATURA E ROCK'N'ROLL

Escritores baianos da nova geração farão uma leitura de trechos de seus livros no sábado, 15 de março, às 18h, no pátio do ICBA (Instituto Goethe, Avenida Corredor da Vitória, 1.809). São eles o poeta Sandro Ornellas, com "Trabalhos do corpo e outros poemas físicos" (2007), e os contistas Gustavo Rios, com "O amor é um coisa feia" (Sette Letras, 2007) e Lima Trindade, com "Corações blues e serpentinas" (Arte Paubrasil, 2007). Os livros estarão à venda na ocasião.
"Esses três livros foram lançados em 2007, em datas separadas, sempre nas manhãs de sábado, numa livraria do centro de Salvador", diz Lima Trindade. "Quando percebemos a afinidade que existe entre nossos trabalhos, tivemos a idéia de fazer um relançamento conjunto, em outro local e outro horário, como uma forma de nos aproximarmos de um público diferente, ligado em cultura pop e comportamento jovem."
Além de Ornellas, Rios e Trindade, participam do recital no ICBA os escritores e jornalistas Katherine Funke (que fará a trilha sonora do recital tocando guitarra elétrica) e Wladimir Cazé (que lerá trechos de um livro que está escrevendo).
O recém-formado grupo literário Corte (Cazé, Ornellas, Rios e Trindade) produz poesia e prosa sob influência de música popular, quadrinhos, cinema e clássicos da literatura mundial. "O nome 'Corte' é uma sigla com as iniciais dos nossos sobrenomes, em ordem alfabética", explica Cazé, de acordo com quem a letra "e" ao final do nome representa a participação de um escritor convidado a cada novo evento do Corte.
Nos livros dos autores do Corte, encontra-se principalmente a vontade de ser realmente livre para escrever e viver. Nas suas obras, estilo de escrita e estilo de vida se confundem (à maneira dos beatniks). O Corte anuncia outros eventos promocionais de suas obras em Feira de Santana (19 de março, auditório da UEFS, durante todo o dia, com a presença dos escritores Mayrant Gallo, Renata Belmonte, José Inácio Vieira de Melo e Lupeu Lacerda) e em Porto Alegre/RS (de 27 a 29 de março, durante a Festipoa Literária).

SERVIÇO:

Quem: Corte
O que: Recital de literatura e rock
Onde: pátio do ICBA, Avenida Corredor da Vitória
Quando: sábado, 15 de março, às 18h
Preço: Entrada franca

Tuesday, March 04, 2008

literatura e rock'n'roll

vou participar do evento abaixo, apareçam:

(clique na imagem para ver ampliar)

Monday, February 25, 2008

com o título de "Pequeno tratado sobre o corpo", foi publicada minha estréia no caderno "Cultural" do jornal baiano "A Tarde" (de 23/02/2008). trata-se de uma resenha do livro "Trabalhos do corpo e outros poemas físicos", de Sandro Ornellas, que teve origem em um post de 2 meses atrás, aproveitado como primeiro parágrafo do novo texto. publico abaixo o restante do texto original, ainda com os trechos (em negrito) limados da edição final:

"(...) O poeta mergulha em territórios desconhecidos, abandonando a pressa e a indecisão do primeiro trabalho, publicado há dez anos, "Simulações" (1998), livro recheado de percepções urbanas relativamente satisfeitas com "o prazer do clichê" (p. 59 de "Simulações"): história em quadrinhos, cinema, vídeo, outdoors de publicidade. Em seu contato inicial com a realidade sobrenatural da poesia, Ornellas não chegava a transfigurar uma visão de mundo em objetos verbais bem-acabados.
No segundo livro, o salto qualitativo é imensurável. Sua literatura se volta para universos ainda pouco explorados pela poesia brasileira (o grafite, a tatuagem, as comunicações em tempo real, a hiperpresença por meio da conectabilidade móvel), abordando, em tons reflexivos e versos mais alongados do que os do livro de estréia, a mitologia do corpo contemporâneo, com seus piercings e cânceres, suas cirurgias plásticas e dietas, suas transgenias e próteses. Essa investigação lírica se baseia numa estética literalmente empírica e presenteia o leitor com brilhantes meditações sobre as pequenas insurgências contra o cotidiano praticadas por todos, revelando certo teor político.
O corpo é "carne desgovernada" (p. 11), "espelho do fora" (p. 11), "breve sonho da matéria", p. 12). O poeta anuncia: "reergo as dobras, os ossos, os canais circulatórios / as glândulas, as fibras musculares que sustentam o eu mínimo" (P. 15). Ele luta para "que o poema continue metonímia da pele" (p. 15) e busca, por intermédio de um "corpo / que a tudo se acopla" (p. 15), "uma escrita a polir um estilo de viver / a domar as formas do escrever / do corpo" (p. 22), pois "em terra de mudos / mais vivo é quem se cola às coisas como crosta / palavra de carne, sangue e pêlos" (P. 20).
Sandro Ornellas compõe o recém-formado quarteto literário beat baiano 4 Beats, que anuncia uma miniturnê de lançamento dos livros de seus autores. Além de "Trabalhos do corpo e outros poemas físicos", estão sendo apresentados ao público "O amor é um coisa feia", de Gustavo Rios (Sette Letras, 2007) e "Corações blues e serpentinas", de Vivaldo Lima Trindade (Arte Paubrasil, 2007). Os três autores farão eventos promocionais de suas obras em Salvador (15 de março, às 18h, no pátio do ICBA, Avenida Corredor da Vitória), em Feira de Santana (19 de março, Anfiteatro Módulo II da UEFS, durante todo o dia) e Porto Alegre/RS (de 27 a 29 de março, durante a Festipoa Literária). O quarto componente do 4 Beats é o poeta Lupeu Lacerda, da vizinha da cidade baiana de Juazeiro/BA, onde, em 11 de janeiro, o grupo literário realizou o evento inaugural da miniturnê.

Friday, February 22, 2008

agora que se aproxima a contagem regressiva para o fim deste precioso tempo livre, é necessária uma viagem que preencha meus dias com estímulos diferentes, pois mesmo o ócio já sucumbiu a uma certa rotina, sequência de gestos mecânicos: acordar tarde, descer para o café da manhã no mercado próximo, rápida leitura do jornal "a tarde", depois praia (...), desta forma os dias foram se consumindo, entre suores e preguiça. não trabalhei furiosamente no meu novo livro, como tinha imaginado, fiz três ou quatro anotações apenas, foi o bastante, a batalha continuará ao longo do ano. daqui a dois dias irei ao rio de janeiro, depois são paulo. percebo que nas últimas semanas estive tentando deixar-me ir à deriva, sem tanto apego à rota traçada previamente, o programa de leituras frustrado. foi uma pausa no afinco com que costumo me empenhar em literatura, um intervalo que enriquecerá o momento de meu retorno à ativa com a impressão de um primeiro contato após a perda do hábito. noto isso ao redigir este diário de férias no caderno de improvisos e também ao fazer curtas anotações para o livro novo e reabrir o arquivo de computador para inserir mudanças ao texto. a desenvoltura que transmito me espanta. e não se trata de um momento especial de inspiração para escrever, pois me sinto inspirado a todo instante se parar para pensar, mesmo que só por alguns segundos, em literatura, e mesmo que não venha a escrever sequer uma linha, o que acontece, aliás, a maior parte do tempo, mas trata-se, ao contrário, de uma verve permanente, um estado de ânimo que apenas alterna períodos de exaltação com períodos de contemplação, nunca eu abandonando a pertença à palavra escrita ou falada.

Wednesday, February 13, 2008

"há diferenças entre diários, agendas e cadernetas, exatamente como há diferenças entre crônicas e memórias e viagens e testemunhos, entre meia-vida e fatia-de-vida e vidas-a-tempo integral" - escreve william gass, em artigo do caderno "mais!" da folha de são paulo de 21 de agosto de 1994. encontrei a citação numa nota de rodapé acoplada (páginas 66 e 67) ao artigo "jorge luis borges e a obrigação de esquecer", de charles kiefer, que integra a coletânea "literatura confessional: autobiografia e ficcionalidade" (mercado aberto, porto alegre, 1997). a nota de rodapé prossegue na citação do texto de william gass: "a agenda tem que ser anotada dia a dia (...). o estilo da agenda é 'staccato', telegráfico. o diário acompanha o andamento do calendário, mas seu alcance é mais amplo, mais circunspecto e meditativo. os fatos diminuem de importância e são substituídos por emoções, devaneios, pensamentos. (...) o diário pede frases, embora essas frases não precisem ser forçosamente bem-acabadas. (...) na caderneta de anotações rompemos com a cronologia. (...) a caderneta é um laboratório, um arquivo."

Saturday, February 09, 2008














é com um ar ritualístico que vanessa buffone rememora e revigora os lugares a que chamou de lar, na lírica literalmente intimista de seu primeiro livro, "as casas onde eu morei" (2005), residências da mulher e poeta dissecadas em série de poemas que se articulam em narrativa

Thursday, February 07, 2008

da biografia de kafka escrita por gérard-georges lemaire (vol. 558 da coleção l & pm pocket) extraí trechos de cartas e diários em que o escritor tcheco fala do ato de criar e que exercem certo fascínio sobre mim:

"às vezes, creio quase ouvir a pedra que me
mói, literalmente, entre a literatura e o trabalho
"
(p. 99-100)

"minhas dúvidas cercam cada palavra, eu as vejo antes das palavras, ora!, a palavra, eu não a vejo absolutamente, eu a invento" (p. 115)

"meu corpo inteiro se põe de guarda a cada palavra; cada palavra, antes que eu a escreva, começa a olhar para todos os lados à sua volta; as frases literalmente se quebram sob minha pena, vejo o que há ali dentro
e imediatamente sou obrigado a parar
" (p. 131)

"no interior de cada palavra existem transições que, antes de serem
postas por escrito, devem ficar em suspenso. Quando (...) me sento para escrever a frase (...), só vejo fragmentos diante dos olhos, não distingo nada (...)
" (p. 151)

Monday, January 28, 2008

BARATA

Para Ingrid Klinkby

Com as patas para cima,
a barata feminina
sossega, extenuada,
após erótica batalha

com uma barata macha
que de tal jeito abraçou-a
que quase deixou-a sem ar,
toda machucada.

Ela suspira e relaxa
para recompor as forças,
seu acre suor sobressalta,
cheiro de coisa morta.

A barata se mantém deitada,
casca rachada no chão,
aparência podre, exausta,
corpo em decomposição.





Friday, January 04, 2008


território de fronteira entre "ensaio, memória pessoal, diário, livro de viagens e ficção narrativa" (p. 226), o romance "o mal de montano", de enrique vila-matas, apresenta como narrador-personagem um "homem-relato" (p. 70) dividido entre sua obsessão doentia pelos livros e sua luta solitária contra o "desaparecimento" da literatura no mundo atual. escrito com auto-ironia e "um estilo sem muitos personagens literários de carne e osso" (p. 156), a obra é uma coleção de frases memoráveis, das quais cito uma que me agrada especialmente: "(...) sem a memória, seria ainda mais angustiante a vida, embora talvez seja ainda mais angustiante dar-se conta de que quanto mais cresce nossa memória, mais cresce nossa morte. Porque o homem não é mais que uma máquina de recordar e de esquecer que caminha para a morte. E não digo isso com tristeza, porque também é certo que a memória, disfarçando-se de vida, converte a morte em algo sutil e tênue" (p. 294)

"Quando começamos a verter nossos pensamentos
em palavras e frases tudo fica à deriva"
(Marcel Duchamp)

os anos de formação do poeta andré fernandes na zona centroeste da grande-são-paulo-veredas deram na lira desvairada de seu primeiro livro, "deriva" (hedra, 2007), série de brevíssimos poemas que se combinam na forma de um discurso lírico e lúcido, dedicado a traçar um trânsito em ziguezague do macrocosmo da megacidade - "cidade-edifício" (p. 50), "cidade / desentendida" (p. 53) - aos microcosmos da rua, do beco e da viela, onde passeiam personagens característicos ("joão e maria", "a síndica do prédio", etc.) e elementos recorrentes (a "massa de gases" do sol visto através da poluição, por exemplo)

Thursday, December 27, 2007

romance-ensaio em forma de notas de rodapé, "bartleby e companhia", de enrique vila-matas, elenca uma multidão de escritores e poetas que decidiram abandonar o ofício da escrita em algum momento de suas vidas - decisão que, segundo o autor, constituiria a tendência mais promissora na literatura contemporânea. o narrador isola-se do meio social para pesquisar o que chama de "síndrome de bartleby" e compor, com a estrutura livre de um diário pessoal, uma galeria de criadores que renunciou a escrever ou interrompeu o desenvolvimento da própria obra. aos poucos, vila-matas desvela seu método: navegar "no fragmentário e na descoberta casual ou na lembrança repentina de livros, vidas, textos ou simplesmente frases soltas que vão ampliando as dimensões do labirinto sem centro" (p. 157)
sandro ornellas redige seus textos com uma lâmina de barbear, como se cortasse no próprio rosto os versos de "trabalhos do corpo e outros poemas físicos" (letra capital, 2007), que giram em torno da carnalidade da existência, apoiados numa dicção densa, quase didática, cuja dinâmica busca, além de "que o poema continue metonímia da pele" (p. 15), circunscrever - ao modo de um pequeno tratado poético sobre o corpo ("carne desgovernada", "espelho do fora", "breve sonho da matéria") - os movimentos do homem urbano comum em suas trajetórias cotidianas em meio aos fragmentos de um universo de consumo e de informação sob mudanças e transformações contínuas, onde "são raras / as horas / em que caras / se mostram / atentas / ao excesso / de tumulto / no caminhar / do mundo" (p. 48)

Monday, December 10, 2007


ecologia é o tema do número 14 da revista italiana de arte
contemporânea "uovo" (turim, 498 páginas, 2 cds de áudio), catálogo de criadores que incorporam a discussão ambiental a seus trabalhos, em experiências interessantes, como a

1. da espanhola LARA ALMÁRCEGUI, que calculou o peso da cidade de são paulo (1 .224.497.942 toneladas) a partir de seus materiais de construção (concreto, argamassa, tijolo, pedra, madeira, brita, aço, asfalto, telha, vidro, cobre, plástico) e organizou o "guia de terrenos baldios de são paulo - uma seleção dos lugares vazios mais interessantes da cidade" (2006). o "guia de terrenos baldios de são paulo", lançado na bienal de são paulo, trata de espaços urbanos que são "paraísos para a vegetação", onde "a natureza é muito selvagem" e "se podem observar processos naturais de decadência, mistura e entropia que se escondem no resto da cidade". a pesquisa encontrou no bairro bela vista uma "zona verde um tanto original como espaço público-cercado-terreno baldio e jardim ao mesmo tempo" (p. 4);

2. do projeto "report (not announcement)": "the restless flux of
information, labour and products on the global scale
"...; "the so called 'precariats' (who seem to be free, mobile and flexible, but in fact are often overloaded and living and working under unstable conditions)"...; "the expanding territorial experience of being in transit or of being between homes, or of being (provisionally or permanently) homeless"...; "the attempt to create one's own necessity and rhythm of mobility" (BINNA CHOI, sul-coreana);

3. de LEE PATTERSON, que comprime sons gerados na água (por algas)
e no ar (por aviões) na faixa "ox bow pool & airliners", terceira do cd
"ecology, luxury, degradation" - "environmental sound as an intersection with the unknown, the macro-world of humans and the micro-life within which they are enveloped" (tradução aproximada: "o som ambiente como uma interseção com o desconhecido, o macromundo dos humanos e a microvida dentro da qual eles são englobados"), David Toop, p. 327;






Monday, November 26, 2007

o blog revista entre aspas compila textos e breves entrevistas com autores e autoras que estão escrevendo literatura e publicando obras literárias na Bahia atual. quase todo mundo já apareceu lá, a exemplo dos prezados sandro ornellas, mayrant gallo, gustavo rios, vanessa buffone e katherine funke. desta vez, o blog escolheu 3 poemas de meu livro "Microafetos", hoje esgotado. [a propósito, o template do revista entre aspas é o mesmo deste Silvahorrida.]

Wednesday, November 21, 2007

ENCOMENDA

a André Fernandes

Embora o meu devir
seja o que me desvia
de uma vida sem deriva,
eu não poderei ir,
mas guarde meu exemplar,
que garanto e não há dúvida,
breve o irei buscar.

Tuesday, October 23, 2007

Golpe de estado

Onde eu vou
O sertão me persegue
Lembro do passado,
Tudo derrubado,
Bullar virou pedra,
Benvenutti procriou.

Wednesday, October 10, 2007

agenda

Fui convidado pra dois debate-papos na mesma semana:

1) "Lire en Fête (Festa da Leitura)”, evento da Aliança Francesa Salvador que tem como tema a leitura e terá pesquisadores da UFBA e escritores-blogueiros de Salvador na mesa-redonda "Universo literário na internet", sobre as possibilidades do blog como ferramenta de publicação de literatura. Na terça-feira, 23 de outubro, às 19h, na Sala de Conferência.

2) "Painéis da Literatura Contemporânea na Bahia", evento semanal com novos escritores de Salvador. Dividirei a mesa com o prosador Gustavo Rios (meu amigo há uns 10 anos, e que estreou há pouco com o inquietante volume de contos "O amor é uma coisa feia") e a poeta Lita Passos. Falaremos sobre nosso percurso de leitores a escritores, qual a importância de escrever para nós, nosso método criativo, etc. O mediador é o professor de literatura na UFBA e excelente poeta Sandro Ornellas. Será na quarta-feira, 24 de outubro, das 15h às 17h, no Labimagem do Instituto de Letras da UFBA.

Dado o aviso, conto com a presença dos leitores deste blog (se é que eles existem). Para arrematar o post autopromocional, uma foto (por Ana Paula Boni) do homem gabiru em seu habitat natural:



Tuesday, September 18, 2007


[Excertos do caderno “Fernando Pessoa”:]

Vôo Brasília-Salvador, depois de reunião de treinamento na empresa, numa passagem tão rápida, desta vez, que mal pude ver a cidade, ver mesmo no sentido superficial da palavra, apesar da varanda do quarto de hotel virada para o Eixo Monumental. (...) no que mais fiquei pensando foi o efeito da passagem do tempo na formação dos indivíduos, a forma como temperamento, origem, oportunidades, aptidões determinam nossas escolhas e nos conduzem por caminhos cujos desdobramentos não podemos prever. Quem seria eu hoje, se, no começo de dezembro de 1988, meus pais não tivessem me resgatado da falta de perspectivas de futuro do sertão pernambucano para terminar o ginásio na capital da Bahia? Que pessoa eu teria me tornado se eles tivessem dado ouvidos à minha sugestão de que a família não se mudasse para Salvador, mas para Brasília (influenciado que eu estava, aos 12 anos, pela geração de bandas de rock do Distrito Federal)? Penso sempre nisso, e (...) sinto que eu e Brasília temos "unfinished business" (negócios pendentes), ou seja, às vezes tenho a impressão de que ainda morarei nela um dia, em busca de uma parte de meu destino, que lá deixei de buscar, há quase 20 anos. Eu estava a fim do rock and roll, não estava a fim de estudar. Se não tivesse saído de Petrolina, teria sucumbido ao desterro de dias sem horizonte, de algum subemprego? Nem consigo imaginar o que teria sido não ter saído de Petrolina; não posso negar que quero o que não foi Brasília. Hoje Brasília já está favelizada. E por acaso não há degeneração em mim, exatamente agora, no instante em que escrevo isto? É impossível fugir da miséria? Ou teria eu progredido comercialmente em Petrolina, politicamente em Brasília? Trabalharia num jornal de cidade interiorana, na sede de um órgão da União? Teria eu caído pro lado da música, caso qualquer distúrbio físico não inviabilizasse tal possibilidade? As cidades se amoldam a seus habitantes e sabem estar ou não estar prontas para nos receber. Certamente que Salvador me acolheu e me catapultou para a cultura, mas, não sendo para mim o lendário lar definitivo dos que se aferram à pátria nativa ou a pátrias adotivas, Salvador também poderia ter me rejeitado! E como teriam se comportado Petrolina, caso continuada, ou Brasília ou qualquer outra localidade, caso para elas eu migrasse? Como serão as cidades para onde ainda irei?

Monday, September 17, 2007

O Porto

Aquela gaivota sou eu e quem foge de eu é eu também
(António Lobo Antunes)


1. Quatro badaladas abafadas na madrugada d’O Porto... Mas o som mais característico da cidade são os alaridos das gaivotas, que podem ser escutados até tarde da noite e permeiam a vida à beira do Rio Douro de águas verde-escuras, “que a certas horas lembra um rio de luz a correr” (Miguel Torga, Portugal). “O rio, liso e espelhado como uma chapa de vidro azul e verde. Uma extensa cordilheira de colinas, cobertas de pinheirais e desenhando no espaço vaporoso e húmido as curvas mais suaves e as perspectivas mais graciosas e mais risonhas...” (Ramalho Ortigão) “O Porto ergue-se em anfiteatro sobre o esteiro do Douro e reclina-se no seu leito de granito. (...) o seu aspecto é severo e altivo (...)” (Alexandre Herculano), “(...) espraiado na sua encosta, firme, amplo (...)” (Miguel Torga, Portugal) “Um eminente historiador de arte em Portugal disse que o Porto é essencialmente barroco. Se nos referimos ao tumultuoso aspecto exterior da cidade, quando de longe a vemos alevantar-se sobre fragas e arrojar estrada sobre os abismos do Douro, dramática e ardente (...), o asserto é verdadeiro. Mas, se o entendermos na essência do barroco, estilo artificioso e teatral do absolutismo e da contra reforma, o qualificativo é eminentemente impróprio. Visto em substância própria e histórica, o Porto é românico, franciscano e democrático.” (Jaime Zuzarte Cortesão, 1884-1960).

2. No Cais da Vila Nova de Gaia, com o cair da tarde, os anúncios luminosos das caves de vinho vão se acendendo, um por um, a longos intervalos: Offley, Sandeman, Calém, Noval, Ferreira, Cruz, Ramos Pinto, Cockburn’s, Dow’s, Graham’s, Delaforce, Croft, Taylor’s, Barros... Depois que a noite desce, as palavras formam como um poema concreto, se lidas da esquerda para a direita, a partir do Cais da Ribeira, n’O Porto: Calém, Noval, Sandeman, Delaforce, Croft, Taylor’s, Offley, Dow’s, Ramos Pinto, Barros, Cockburn’s, Cruz, Ferreira, Graham’s, Fonseca...

Thursday, September 06, 2007

Lisboa


PRIMEIRO ATO


“(…) capital do nada
(Miguel Torga, Diário VI)

Lisboa é um peso na memória
(stencil numa parede da Calçada do
Marquês de Tancos, bairro de Alfama,
Lisboa)


O Airbus 330 da TAP “Pedro Álvares Cabral” foi a nave que me levou, por cima de um oceano Atlântico sacudido por “zonas de turbulência”, ao Velho Mundo. O Aeroporto de Portela de Sacavém, a sete quilômetros do centro de Lisboa, inaugurou há poucos dias seu segundo terminal e é “um aeroporto que, oficialmente, só tem mais uns anos de vida” (segundo artigo de Miguel Sousa Tavares publicado na edição de 11 de agosto de 2007 do jornal Expresso). Planeja-se um novo aeroporto para a capital portuguesa, em local ainda não escolhido.

Quarteirões vazios de carros e de gente nesta manhã de sábado, em torno da Praça Marquês de Pombal, centro financeiro de Lisboa. Do alto dos jardins do Parque Eduardo VII tenho minha primeira visão do rio Tejo, de “estuário largo e majestoso, fundo e aconhegado” (Miguel Torga, Portugal), ao fim da colina suavemente inclinada por onde desce uma avenida Liberdade ampla e arborizada. Sigo por essa via em direção ao “cais do mundo” e meus olhos então

“(...) Começam de enxergar subitamente
Por entre verdes ramos várias cores,
Cores de quem a vista julga e sente
Que não eram das rosas ou das flores.
Mas de lã fina e seda diferente
Que mais incita a força dos amores,
De que se vestem as humanas rosas
Fazendo-se por arte mais formosas


(Luís de Camões)

São elas, as viajantes de muitos lugares e línguas, vagando no circuito entre as praças dos Restauradores e do Comércio, à beira-rio, em meio às “pombas turísticas, que afinal não voam e só servem para sujar o mosaico” (Miguel Torga, Portugal).

No miradouro com uma estátua do gigante Adamastor e uma vista para a ponte 25 de Abril, fico-me sob o sol escaldante a beber um chopp (aqui se diz “imperial”) da marca Sagres, quando surge um bando de ianques e franceses com crachás da Microsoft, cheiro de protetor solar e carrinhos-de-bebê. O esbanjamento de euros da classe média do continente em férias de verão, propiciado pela forte moeda comum, convive paficamente com pobres pedintes por toda parte, como, por exemplo, na rua Augusta, que se mostra um tanto decadente, os pilantras mercando drogas à porta de restaurantes caros cujas sardinhas têm uma aparência estranha (suas entranhas são estranhas) e parecem ter sido pescadas num esgoto da baía de Setúbal – “no mar”, conforme venho a saber pelo garçom brasileiro. (E então, pá!? Há muitos brasileiros garçons.)

No feriado da Assunção de Nossa Senhora (15 de agosto), a situação no bairro de Belém chega a ser intolerável: turistas, em flagrante excesso, picnicam na Praça Afonso de Albuquerque e deixam lixo no jardim público, sujam o Tejo com garrafas de plástico, cacarejam interjeições estúpidas e congestionam lanchonetes e acessos a sítios históricos, uma horda desordenada de saqueadores de paisagens, fotografando e filmando com compulsão.

Para livrar-me por um momento os ouvidos e as vistas de suas presenças, fecho-me na guarita frontal direita da bateria alta do Baluarte do Restelo (a Torre de Belém, ou de São Vicente, fortificação construída no início do século XVI para a defesa da barra do Tejo), logo acima das águas verdes brilhando ao sol alto, bem diante das fraldas verdes da margem sul do rio, os “arvoredos da outra-banda” (Alberto Pimentel, Fotografias de Lisboa, p. 21), onde são terras de Almada, fruindo o vento frio que vem do leste e segurando com força a folha em que escrevo para que não voe. Os minutos passam e não me mexo, sentinela a espreitar um possível ataque inimigo que porventura surja a montante, e eu insisto mais alguns instantes na função de defender este silêncio e este sossego tão a custo conquistados, no cais de onde partiram as frotas que descobriram o caminho das Índias (1498) e o Brasil (1500).

Depois subo as vielas estreitas, inclinadas e labirínticas do antigo bairro árabe de Alfama, até o Castelo de São Jorge, de onde se tem a vista mais privilegiada do centro histórico da cidade, os telhados avermelhados do casario da Baixa, do Chiado e do Rossio se distribuindo calculadamente, entre as praças do Comércio e Dom Pedro IV, em quarteirões simétricos, à frente de tudo, o Tejo azul-claro imenso e manso, sobre cuja “toalha límpida (...) cai a luz a jorros (...)” (Miguel Torga, Portugal)...

Eis “Ulíssia” (cidade de Ulisses), a “Alis Ubbo” dos fenícios, a “Olisipo” dos romanos, a “Al Uzbuna” islâmica do século XI, precursora da globalização, “terra de encruzilhadas da História” (Miguel Torga, Portugal), “cidade da opulência, do tumulto e da pobreza” (Alberto Pimentel, Fotografias de Lisboa, p. 122).

“(...) É Lisboa um mar profundo
De vária navegação;
É um compêndio do Mundo,
Aonde tudo acharão;
Ásia, África, Europa,
Nova Terra, Mundo novo;
Comércio, nobreza, povo,
Tudo se anda a vento popa
.

Ali achareis o Indiano,
o Japão, o Pérsio, o Chim,
o Turco, o Mouro, o Marrano,
o Moscovita, o Estrelim;
Ali o dano e o proveito,
Bem, mal, gostos e trabalhos,
Festas, músicas e balhos,
O singelo e o contrafeito.
(...)”

(André Falcão de Resende, 1528-1598, Cancioneiro de Lisboa – Séculos XIII-XX, vol. 1, Publicações Culturais da Câmara Municipal de Lisboa)

Toda esta gente que, de partes várias,
Correndo por caminhos diferentes,
(...)
Assim se junta nessa triunfadora
Cidade do larguíssimo Oceano;
(...)
Nessa do Mundo principal Senhora,
Que ao Céu levanta o nome Lusitano;
Por armas suas uma Nau pregoa,
Que dois corvos discorrem, popa à proa.


(Vasco Mouzinho de Quevedo, 1575-1620, Cancioneiro de Lisboa – Séculos XIII-XX, vol. 1, Publicações Culturais da Câmara Municipal de Lisboa)


SEGUNDO ATO

“(...) às vezes sou cativado por uma
imagem, um detalhe, e perco
completamente o curso da narrativa. (...)
Uma vez dissecada e incorporada num
outro contexto ela torna-se novamente num
‘alvo virgem’.
(Noé Sendas, artista plástico
português nascido em 1972).

Dois corvos. O brasão da cidade de Lisboa é representado do seguinte modo: “um barco negro realçado a prata, por fora; no interior do barco é preta realçada de negro. Os mastros e cordas são de negro com uma vela ferrada de cinco bolsas de prata. À popa e à proa dois corvos negros. Leme negro realçado de prata. O barco está assente num mar representado por sete faixas, onduladas, sendo quatro de cor verde e três de prata. Coroa mural de ouro de cinco torres. Ostenta ainda o colar da Torre e Espada. Listal branco com os dizeres a negro: ‘MUI NOBRE E SEMPRE LEAL CIDADE DE LISBOA’.” (Gentil Marques, Lendas de Portugal, Porto, 1965, vol. IV, ps. 157-164.)

Os dois corvos recordam o episódio lendário das aves que, em 1173, dizem ter sinalizado o local onde estavam ocultas as relíquias do mártir São Vicente de Saragoça (morto no ano 304), que tinham sido levadas por cristão fugitivos de Valência (aquando da ocupação da cidade pelo muçulmano Abderrahman I, primeiro emir da península Ibérica, onde reinou durante 31 anos), inicialmente para o Algarve, ao sul, onde o depositaram no promontório que então passou a ser conhecido como Cabo de São Vicente, e depois para Lisboa (aquando de sua reconquista pelo cristãos liderados por Dom Afonso Henriques, em 1147), onde o puseram na Igreja de Santa Justa, depois na Sé Catedral, até que o terremoto de 1755, com o incêndio que provocou, tudo levou e destruiu. (Gentil Marques, id., ibid.)

TERCEIRO ATO

“(…) sendo uma viagem uma novela em
acção, vem incorporar-se ao plano geral, como
nos romances, um sem-número de episódios
imprevistos, que são sempre os melhores
(Alberto Pimentel)

A good traveller is one who does not know
where he is going to, and a perfect traveller does
not know where he came from
(Lin Yutang)


Há uma “Noite de observação”, no Observatório Astronômico de Lisboa, na Tapada da Ajuda, no alto de um morro com uma grande área verde pertencente à Universidade de Lisboa. A sessão de observação astronômica será ao ar livre, no escuro total, num pátio entre o prédio (construído entre 1861 e 1876) e as árvores enegrecidas. Três jovens pesquisadores estão a montar o equipamento, dois telescópios e dois computadores. Vemos a constelação de Escorpião, e, nela, o planeta Júpiter (ou melhor, a luz do sol refletida nele) e aprendemos sobre o nascimento e a morte de uma estrela, sobre a origem de nossa galáxia e do sistema solar, sobre o cinturão de asteróides entre Marte e Júpiter, sobre a recente exclusão de Plutão da categoria de “planeta”. As pessoas são vultos na penumbra, as luzes dos monitores e alguns astros cintilam no breu, de vez em quando um avião corta o céu, na rota para o pouso em Portela. “(...) No fundo, os aviões que chegam constantemente à Portela são o regresso das caravelas que partiram. Vasco da Gama reincarnou modernizado e universalizado nos pilotos de agora (...)” (Miguel Torga, Diário IV, 1949).

GAIVOTAS 2

Duas gaivotas se cruzam
num cais, se calhar esquina,
no desacerto das ruas,
o céu duplo, azul e cinza.

Como depois as separa
a noite, sua aventura
será propor frases ásperas,
rogos, avisos, perguntas.

Wednesday, August 29, 2007

GAIVOTAS

Sobre o oceano chove,
e a pesca fica difícil
para um bando de gaivotas,
que foge em busca de abrigo.

O vento, a água fria
irritam as aves alvas,
sobre os telhados altivas,
grasnando, pois estão bravas.

Thursday, August 23, 2007

GAIVOTA 2

Uma gaivota marota
arremete contra o mar,
faz elegantes manobras
navegando pelo ar
e toma o rumo d’O Porto,
cidade de Portugal,
lançando por onde passa
gritos, gozos, risos, choros?

Monday, August 20, 2007

"Nada de nosso temos senão o tempo, de que gozam justamente aqueles que não têm paradeiro" (stencil numa parede da Calçada do Marquês de Tancos, bairro de Alfama, Lisboa).

meu endereço atual é a


Friday, August 10, 2007

vou para onde ainda é verão

Tuesday, August 07, 2007

A MINA

ela é a pessoa que nós escolheríamos para levar para uma ilha de edição deserta.
é a primeira e única no uso do premiere.
é a fada-madrinha do corte e da montagem.
é a mina de ouro do grão de prata.
é a maestrina da sétima arte.

os efeitos que ela provoca são muito especiais.
faz mojica encontrar smetak.
faz eutímio entrar nos trilhos.
ela tem título de bruxa.
fez mágicas em mais de um vídeo.

e, para finalizar,
vamos reconhecer
que temos que nos render,
nos renderizar a seus poderes.

Friday, July 27, 2007

going global

vai abaixo um texto da agência Reuters que, há 10 meses, circulou por centenas de páginas da internet, traduzido em várias línguas... era o início do processo devastador ainda em curso... preciso de férias para me globalizar em carne e osso e não só virtualmente...



Brazilian Airliner With 150 on Board Missing Over Amazon

Friday, September 29, 2006 RIO DE JANEIRO, Brazil — A Gol airlines jet with around 150 people aboard was missing Friday over the Brazilian Amazon after a midair collision with a smaller executive jet, Brazilian aviation authorities said.

Wladamir Caze, spokesman for the Brazilian aviation authority, said Gol flight 1907 left the jungle city of Manaus and disappeared after a collision.

(...)