na terça-feira, 29 de abril, completam-se 28 anos da morte do diretor de cinema Alfred Hitchcock (1889-1980). em homenagem a ele, a edição de hoje do caderno "Cultural" do jornal A Tarde publicou, ilustrado por Gentil, o meu poema a seguir:"Os pássaros"
Aos mestres Alfred Hitchcock e André Setaro
agressivas, atacaram
uma cidade indefesa
à beira da Baía.
Os animais, ensandecidos,
ocuparam a paisagem
do lugarejo pacato,
tal qual uma ameaça ambiental.
Cada criatura aeromarítima
fazia a descida rápida
da ave de rapina
que mira a presa e cai para cima.
Uma visitante ilustre
teve a testa atingida
pelo golpe de um bico agudo,
ficou feia a ferida.
Outras mulheres e crianças
também sofreram bicadas
certeiras na cabeça,
tiveram as roupas rasgadas.
Na festa de aniversário,
adolescentes alvejados
foram, por bandos enfezados,
sem dó nem piedade.
Nuvem de passarinhos
choveu através da chaminé,
jorrando dentro da sala
e fazendo uma baderna.
Um viúvo foi achado
morto dentro de casa,
com os dois olhos furados,
xícaras quebradas.
Tais fatos desencadearam
medo e desespero,
abalaram a tranquilidade
daquela comunidade.
Os corvos vieram em ordem,
um a um empoleirados
nos brinquedos da escola,
prontos para infernizar.
Os pássaros de agouro mau
como fumaça ou nevoeiro
tiraram o sossego
de todo o pessoal.
Corvos pretos, alvas gaivotas,
aves de várias espécies,
aparentemente nervosos,
fenômeno inexplicável.
Suas vozes cruzavam os ares
como o som de ferragens rangentes
e apavoravam os moradores
disseminando o suspense.
Uma gaivota desferiu
um golpe veloz e certeiro
no rosto do frentista
no posto de gasolina.
Socorro, gritou alguém do povo,
na tentativa de fuga.
O caos tomou a rua,
sangue, pânico, fogo.
Os corvos, quem pensam que são?
O que se passa com as gaivotas?
Para que causam confusão?
Por que perturbam a ordem?
Depois de dois dias
de ofensivas sobre a vila,
já se tinha várias vítimas,
algumas com risco de vida.
Só um casal de periquitos
permanecia quieto,
sério, no meio do desvario,
confabulando em silêncio.
Apenas aqueles mulher e homem
mantinham o sangue frio
e estavam calmos e atentos
no mais louco Paraíso.
Wladimir Cazé © 2008

A filha do imperador que
foi morta em Petrolina,
por Wladimir Cazé; folheto de cordel;
Edições K, volume 1, 26 p.,
R$ 2 (com o autor); R$ 5 (pelo correio).
Ilustração: Roney George
Diagramação: Albano M. Ribeiro

